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Destino: São Paulo

Isak Barros de Morais Sampaio
há 1 dia
3 min de leitura

Atualizado: há 13 horas

Ilustração por Ricardo Satoshi Yamassaki


O coração de Mariane batia acelerado desde que matara o pastor da igreja. Agora, com os olhos na paisagem além do vidro fosco, ela sentia o estômago se irritar e um princípio de agonia que anunciava um enjoo. Ver a diminuta cidade de Boa Nova ficar para trás lhe fazia lembrar das histórias de todos os seus parentes que iam embora em busca de melhores oportunidades nas metrópoles.


Havia acontecido com sua avó Rosário. Quando era ainda moça, partiu em um ônibus descascado sem a certeza de que teria algo para comer no dia seguinte, tudo para arranjar uma casa de família que lhe desse um teto e um serviço para exercer. Não era de toda letrada, mas escrevia para a mãe cartas de apaziguamento. – Tu vai pra Bahia, Valter? Então leva essa carta e entrega pra mãe, senhorinha, que é bom que economiza o dinheiro do Correio.


Sabia que seus pais não liam as palavras grafadas como liam os sinais da terra e do plantio, mas alguma de suas irmãs mais novas haveria de ler em voz alta para todos. “Querida mãe, em primeiro lugar o meu abraço, a pai, a senhora, as meninas. Por enquanto aqui tudo bem, graças a Deus...” Mentira. Na carta não falaria da barriga que roncava durante a viagem, da garoa fria que a recebeu quando chegou, dos homens que lhe mexeram até aprender que eles não respeitavam os seus nãos. E assim, mandava os abraços, as lágrimas salgadas ela ia guardando consigo.


Logo quando ela deu à luz a mãe de Mariane, sonhava uma vida diferente para a filha. Voltou à boa Bahia, esperando que no chão de terra varrida em frente à casa, a filha descobrisse que haveria em seu mundo muito calor e afeto. Mas a pequena Luísa cresceu com a vontade grande de sonhar. Sonhou mais alto que qualquer outra na família sonhara, e em seus desejos almejou um diploma. O povo estranhava, mas a mãe vinha logo defendendo. – Deixe a menina, é o jeitinho dela! E Luísa foi crescendo, logo que tomou idade foi se despedindo da mãe. Lá foi ela no ônibus carcomido pelo tempo, levando duas fichas telefônicas. A primeira ela usou pra dizer que tinha chegado bem e que ia estudar pro vestibular quando voltasse do trabalho de babá na casa de um tal homem benfeitor. A segunda ficha ela usou meses depois pra dizer que estava voltando. A mãe não entendeu quase nada, e Luísa nunca disse coisa nenhuma. Só que a barriga cresceu e uma menina nasceu, a quem ela deu o nome de Mariane. Do genitor, Luísa nunca disse nada, as palavras se engasgavam na garganta, o olhar tornava-se sombrio. A mãe nunca forçou nenhuma confissão, sabia que ali dentro tinha uma dor profunda, marcada pelas mãos de um monstro nada mais que humano.


Mariane então foi criada por mulheres, sem sentir que lhe faltava algo no seio familiar. Mas agora lá estava ela, lembrava-se de sua mão marcada, da faca lançada na correnteza das águas, tudo se misturava junto ao céu anil que cobria a estrada. Fazia agora um trajeto que não era seu, mas um caminho ancestral, algo que ela sentia familiar. Talvez uma informação fatalmente inscrita em seus genes, o destino era a S. Paulo da carta, era o orelhão da esquina. Viveria uma história que compartilhava com a mãe, com a avó e com muitas outras vozes abafadas pelo trabalho do motor de tantos cavalos-vapor.


Antes, quando chegou com a mão ensanguentada em casa, mãe e avó se entreolharam. Chegara a temida hora da filha tomar viagem. Aquela viagem que era a única resposta a um povo sofrido e com tantas necessidades – de trabalho, de educação, de refúgio. E agora, sem álibi, Mariane fugia, veria as mulheres de sua vida? Ela não poderia saber, e se pudesse, preferiria a ignorância pelo medo de confrontar um rompimento definitivo com sua fonte de afeto. Havia naquela menina quase mulher um conjunto de sentimentos que iam do medo, da saudade, até o alívio. Medo pela incerteza do futuro à sua frente, saudade da família que deixara pra trás, mas um alívio por saber que o pastor nunca mais mexeria com menina alguma.

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