Permanente, estagnado
O que mudou e o que ficou enquanto eu não saí do lugar

Fotografia por Beatriz de Oliveira Lira
Meus pais se mudaram pra casa onde a gente mora quando eu tinha 5 meses. A mudança foi feita no feriado de 7 de setembro, depois de uma avalanche de emoções, dinheiro que vem e que vai, um devedor que ficou desempregado e várias outras desventuras financeiras. Minha mãe tinha 34 anos. Meu pai, 30.
Essa era provavelmente a quarta ou quinta mudança desde que eles tinham se casado, 8 anos antes. Começaram em um quarto de fundo, que tinha a laje baixa e pouco espaço para circular o ar. No verão, despejavam gelo em cima da laje e dormiam em cima de uma toalha molhada para aliviar o calor. Então, um espaço um pouco maior. Com a primeira gravidez e a promessa de uma filha, uma casa pequena num bairro semiafastado. Com a perda da bebê e de uma nova gravidez, dessa vez bem sucedida, uma casa de dois quartos, numa ladeira íngreme onde se ouvia o ronco dos motores que passavam gritando.
Depois de muito medo e muita insistência, uma nova gravidez e a necessidade de uma casa maior, que acomodasse o que viria a ser uma família de quatro. Assim que começou a procurar, meu pai encontrou uma casa grande, em uma rua sem saída e sem movimento, com um larguinho em frente à janela da sala, de onde podia ver, por entre os coqueiros do jardim, as crianças brincando na rua. Se apaixonou de primeira e não teve corretor que convencesse a olhar outro lugar.
A casa era cara, e o dinheiro era curto. Foi feito um acordo de pagamento com o antigo dono, Sr. Ivan, que não queria vender, mas que já não aguentava as escadas. Além de tudo, o sobrado era antigo e precisaria de uma série de reformas até ficar do jeito que eles pretendiam, além de alguns ajustes antes até da entrada da família. Depois de alguns meses, muitas horas de trabalho, uma venda de carro, um parto (literalmente) e alguns cabelos brancos a mais, a casa era deles.
Pouco tempo depois da mudança, meu irmão conheceu a criançada que morava nas casas vizinhas, todas mais ou menos da idade dele. Para quem o mundo antes era o quintal apertado da casa na ladeira, aquilo era o verdadeiro paraíso. Um dia, depois de horas correndo pra cima e pra baixo com os novos amigos, ele disse: “A gente nunca vai sair daqui né, Pa?”. Meu pai diz até hoje que, nesse momento, a casa estava paga.
Para além dos vizinhos imediatos, o bairro sempre teve um quê provinciano. Tudo à disposição numa caminhada de 10 minutos: farmácia, mercado, padaria e açougue. Na época, as grandes redes ainda não dominavam tudo, e conhecíamos por nome os donos e funcionários de cada um dos estabelecimentos.
Hoje, 27 anos depois, o bairro mudou, mas também continua o mesmo. O açougue pequeno deu lugar a uma Swift. O mercadinho onde tinha chinelo barato fechou. O relojoeiro morreu e o sapateiro se aposentou. O Banco Real, que já nem existe mais, virou Burger King, que depois fechou e virou empreendimento imobiliário. Ao mesmo tempo, resistem algumas marcas: o dono da banca da esquina, que me viu crescer a cada vez que eu passava por lá; a academia onde aprendi a nadar e onde hoje ainda faço musculação; a pizzaria que vive cheia e que faz para os meus pais um sabor que não existe mais no cardápio.
Caminho pelo bairro, normalmente com o meu cachorro, e sempre penso no que mudou e no que permanece o mesmo. Via de regra, não tem como escapar de encontrar algum conhecido na rua, que normalmente cumprimento rápido sem nem tirar o fone do ouvido. Além de não querer conversar, fico pensando se eles pensam que eu estou presa aqui, por que ainda moro com os meus pais, e o que estou fazendo na rua em horário comercial. Imagino o que eles pensam e o que sabem sobre a minha vida, se têm ciência de que quando eu era mais nova, dizia que assim que fizesse 18 anos sairia de casa, mas que hoje não tenho dinheiro nem pra um mês de aluguel.
O bairro mudou, mas continua o mesmo, e em mais de um sentido, eu também. Cresci, mas me sinto criança. Progredi, mas não saí do lugar. Quanto mais perto dos 30 eu chego, mais alarmante parece ser a realidade. Meus amigos todos moram sozinhos. E enquanto isso, eu ando de bermuda e cabelo colorido, comprando os ingredientes para a minha mãe fazer o jantar.
Precisamente hoje, fui na padaria buscar o pão francês que minha mãe sempre disse ser o melhor do bairro. Olhei com saudade a vitrine cheia de coisas que comia quando criança, e fiz o pedido que faço desde que comecei a poder andar sozinha: oito pães, mais queimadinhos e cascudos, do jeito que a minha mãe gosta.
Chegando no caixa, um rosto familiar que eu vejo há anos. Uma moça que me conhece de pequena, da época em que toda segunda-feira minha mãe estacionava o pálio azul para comprar o pão que deixaria no freezer durante a semana. Numa dessas segundas, me chamou a atenção o brinco que ela usava, um Keroppi pequenininho. Desde então, em casa ela virou a “moça do brinco de sapinho”.
Ela me dá um boa noite genérico e penso se ela lembra de mim. Instintivamente, olho pras orelhas e vejo que o brinco não é mais de sapinho, mas uma bijuteria com uma pedra verde pendente, mais séria e sóbria. Ela agora usa óculos de armação grossa, mas continua com o coque firme que é protocolo da padaria. Como eu, ela também está mais velha. Dou um sorriso e um boa noite mais entusiasmado do que de costume, mas não tenho nenhuma grande reação. Penso se 20 anos atrás ela imaginaria que, assim como eu, ela ainda estaria aqui.
Minha mãe diria pra eu falar alguma coisa, perguntar se ela lembra de mim. Não vejo muito sentido nisso e prefiro ficar em silêncio. Quando desisto do reconhecimento, ela pergunta: “E a sua mãe, tá bem?”. Respondo que sim, que ela vai bem, que está tudo igual. Passo a compra no cartão e me despeço, desejando um bom descanso. Ela responde sem olhar pra mim e chama o próximo da fila.
Volto pra casa pensando em mim e pensando nela. Pensando no que vai bem e em tudo que está igual.


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