Quantas histórias existem por trás das janelas?

Fotografia por Ricardo Satoshi Yamassaki
A reportagem é fruto de uma série de escolhas muito conscientes, o jornalista escolhe para onde olhar, quem ouvir e quais histórias irá contar. Porém, é necessário pensar sobre o que faz uma história merecer ser contada: uma grande tragédia, o envolvimento de pessoas famosas ou acontecimentos extraordinários? O diretor Eduardo Coutinho, em seu documentário de 2002, Edifício Master, pretende mudar essa tradição e voltar seu olhar para pessoas comuns de um prédio comum de Copacabana, mostrando que nenhuma história é ordinária demais para deixar de ser contada.
A mídia, na grande maioria dos casos, decide mostrar apenas aquilo que é excepcional, até porque o cotidiano parece pouco interessante. Mesmo Coutinho se sentiu amedrontado ao produzir o filme, já que, em suas palavras, “as experiências de vida eram menos fortes, as pessoas eram mais fechadas, a narrativa das experiências era menos rica. Eu precisaria de muitos personagens para dar um filme. Não haveria relatos extraordinários. A diversidade de experiências é que seria essencial naquele universo”. Entretanto, é justamente no ordinário que mora o encanto. Nele, todos podem se reconhecer.
Coutinho faz uma escolha, em um dos bairros mais famosos do Rio de Janeiro, opta por não olhar para o que está fora e, nisso, não aborda a Copacabana dos cartões-postais, a Copacabana com uma bela praia, a Copacabana dos restaurantes, a Copacabana badalada, mas voltar as câmeras a um simples prédio, com moradores e com histórias comuns, mostrando que a magia de um lugar está nas pessoas que o compõem. O diretor entrevista diversos moradores do prédio e cada um conta um pouco de sua vida e como o edifício a moldou. Diversos personagens são apresentados: uma professora de inglês com problemas de “neurose” e que escreve poesias, um homem que subiu ao palco com Frank Sinatra para cantar “My Way”, e outro que desconfia que seu pai adotivo, com quem sonha toda noite, é na verdade seu pai biológico, esperando a verdade que fosse contada por sua mãe apenas em seu leito de morte. Apesar de diferentes, todos têm uma única coisa em comum: o edifício.
Eduardo Coutinho aborda o documentário de forma particular justamente porque escuta sem pressa, não interrompe os entrevistados, não interfere em suas opiniões e os dá liberdade para expressar todas as emoções que poderiam ter. Com isso, saímos nos questionando como ele encontra pessoas tão fascinantes, ainda que, na realidade, ao se abrir para ouvir atentamente, encontrou fascínio no comum.
Outro aspecto interessante é que a proximidade física não produz intimidade. Você já se perguntou, ao olhar para um grande prédio iluminado durante a noite, o que cada morador esconde por trás das janelas? Ou até mesmo, será que já nos perguntamos quem são as pessoas que encontramos todos os dias no elevador ou cruzamos na portaria sem nunca as conhecer? Essas perguntas escancaram um problema recorrente da modernidade, a solidão urbana. Em um mesmo edifício em que inúmeras pessoas partilham dos mesmos corredores e áreas comuns, seríamos capazes de imaginar que eles também compartilham vínculos e amizades. O que o documentário mostra é que essa não é a verdade. Cada pessoa, dentro de cada apartamento, possui lembranças e experiências invisíveis aos vizinhos. Coutinho, quando atravessa a barreira das portas, rompe com o anonimato e permite ao espectador observar as vidas que antes passavam despercebidas.
Ao assistir ao Edifício Master, torna-se difícil olhar para aquele prédio iluminado da mesma forma. Cada uma das janelas passa a ser uma vida inteira, repleta de lembranças, sonhos e experiências. Eduardo Coutinho encontra intimidade no desconhecido, e revela que o ordinário pode ser também extraordinário, e que pode ser encontrado em qualquer lugar. Volto, então, à pergunta inicial: o que faz uma história merecer ser contada? A resposta é: a simples existência de alguém disposto a tocar a campainha, entrar e escutar.
Bibliografia
INSTITUTO MOREIRA SALLES. Edifício Master. Disponível em:
https://ims.com.br/filme/edificio-master/. Acesso em: 6 ago. 2026
VASCONCELOS, Gabriela. Solidão urbana: o novo desafio de saúde pública. Veja, Cidade Cidadã, 20 fev. 2026. Disponível em:
https://veja.abril.com.br/coluna/cidade-cidada/solidao-urbana-o-novo-desafio-de-saude-publi ca/. Acesso em: 6 ago. 2026.



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