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A universidade que nem todos vivem: o custo invisível da permanência estudantil na SanFran

Matheus Freitas Silva
31 de ago.
4 min de leitura

Fotografia por José Ricardo Kishi Costa Silva


Ingressar na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo sempre foi sinônimo de excelência acadêmica e prestígio. Nos últimos anos, em contrapartida, a adoção das políticas de cotas transformou o perfil da comunidade franciscana, tornando a São Francisco mais diversa e ampliando o acesso de estudantes da escola pública e de grupos historicamente sub-representados ao ensino superior na USP. Por outro lado, o vestibular não era a única barreira intransponível para milhares de jovens; outro obstáculo permanece diariamente presente: conseguir permanecer na universidade. 


Mais do que frequentar as aulas, viver a universidade significa participar dos grupos de pesquisa, dos projetos de extensão, das entidades estudantis, das monitorias, dos seminários, dos congressos e das atividades culturais que fazem parte da formação jurídica. Contudo, para muitos estudantes, especialmente para aqueles que dependem de políticas de assistência estudantil, essa experiência é um privilégio difícil de alcançar. 


A discussão voltou ao centro da comunidade universitária durante a recente greve estudantil da USP. Entre as principais reivindicações apresentadas estavam o fortalecimento das políticas de permanência, a ampliação do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), as melhorias na assistência estudantil e as mudanças relacionadas aos restaurantes universitários. O movimento mobilizou diversas unidades da Universidade e reacendeu um debate que ultrapassa as salas de aula: garantir o acesso ao ensino superior é suficiente quando parte dos estudantes ainda encontra dificuldades para permanecer nele? 


Embora a greve tenha sido encerrada, muitos estudantes avaliam que os resultados ficaram aquém das expectativas. As reivindicações relacionadas ao aumento dos investimentos no PAPFE e às melhorias na política de alimentação estudantil não alcançaram mudanças capazes de alterar significativamente a realidade enfrentada pelos alunos de baixa renda. Para muitos, a mobilização evidenciou que o desafio da permanência permanece longe de uma solução definitiva.


Na Faculdade de Direito, essa realidade assume contornos particulares. Localizada no centro da capital paulista, a unidade recebe estudantes de diferentes regiões da cidade e do estado. Muitos passam horas no transporte público, conciliam a graduação com estágios remunerados e dependem de bolsas para custear despesas fundamentais, como alimentação, moradia e transporte. 


Se as políticas afirmativas permitiram que novos perfis de estudantes ocupassem um espaço historicamente reservado às elites brasileiras, o custo de vida em São Paulo faz com que o ingresso na universidade seja apenas o início de uma longa jornada. Para muitos alunos, aceitar um estágio remunerado logo nos primeiros semestres não é uma escolha voltada ao mero desenvolvimento profissional, mas uma necessidade financeira. É justamente nesse ponto que surgem as diferenças entre aqueles que conseguem viver plenamente a universidade e aqueles que apenas conseguem permanecer nela. 


João, estudante cotista do terceiro ano, personagem fictício criado para fins desta reportagem, afirma que a expectativa construída antes da aprovação na Fuvest rapidamente deu lugar às exigências da realidade.


"Quando passei na USP, imaginava participar de grupos de pesquisa, projetos de extensão e acompanhar os debates da Faculdade. Mas precisei começar um estágio logo no primeiro semestre para ajudar nas despesas de casa. Hoje, saio do trabalho e venho direto para a aula. Quase nunca consigo ficar para qualquer atividade depois." 


A situação se repete entre beneficiários dos programas de assistência estudantil. Maria, estudante contemplada pelo PAPFE, relata que a bolsa é um apoio importante, ainda que insuficiente diante do custo de vida na capital. 


"O auxílio faz diferença, mas não cobre todas as despesas. Muitas vezes preciso escolher entre ficar para uma palestra ou economizar o dinheiro da condução. São decisões pequenas que acabam afastando a gente da vida universitária." 


A rotina também é compartilhada por Lucas, ingressante pelas cotas sociais. 


"Às vezes parece que existem duas SanFrans: uma vivida por quem consegue passar o dia inteiro na Faculdade, participar das entidades, fazer pesquisa e conhecer professores, e outra de quem chega poucos minutos antes da aula e vai embora assim que termina porque precisa trabalhar."


A tradição da São Francisco sempre esteve vinculada a uma intensa participação estudantil. O Centro Acadêmico XI de Agosto, os coletivos, as competições acadêmicas, os projetos de extensão e as revistas científicas constituem parte importante da identidade da Faculdade. De fato, essas atividades complementam a formação jurídica, aproximam os estudantes da sociedade e fortalecem o ambiente democrático que caracteriza a instituição. 


Entretanto, participar dessa tradição exige tempo, um recurso escasso para quem depende do estágio como fonte de renda. A maioria dos eventos ocorre justamente durante o dia, horário em que muitos estudantes trabalham. Outros acontecem após as aulas, exigindo gastos adicionais com alimentação e transporte, o que também dificulta a participação. O resultado é que oportunidades formalmente abertas a todos acabam sendo usufruídas de maneira desigual. Mesmo que não existam barreiras institucionais ao acesso, persistem barreiras econômicas que limitam quem consegue aproveitar plenamente a experiência universitária. 


Essa realidade também dialoga com discussões recentes sobre pertencimento dentro das universidades brasileiras. Episódios de racismo e aporofobia em ambientes acadêmicos revelam que a democratização do acesso ao ensino superior não elimina automaticamente desigualdades históricas, evidenciando a necessidade de fortalecer políticas que assegurem não apenas o ingresso, como também condições efetivas de permanência. 


Nos últimos anos, a própria Faculdade ampliou sua estrutura física com novos espaços destinados ao ensino e à convivência acadêmica, na procura de atender ao crescimento da comunidade universitária. A expansão pode ser um avanço importante para a instituição, mas a infraestrutura sozinha não resolve os obstáculos da permanência estudantil. 


Com isso, a transformação do perfil social da USP constitui uma das maiores conquistas da universidade pública nas últimas décadas. Hoje, estudantes que dificilmente chegariam às Arcadas ocupam suas salas de aula, desenvolvem pesquisas e contribuem para uma Faculdade mais plural. Ainda assim, a democratização do ensino superior não termina na aprovação no vestibular. Permanecer na universidade significa muito mais do que conseguir pagar o transporte ou a alimentação, significa ter condições de construir uma trajetória acadêmica completa, participar dos espaços de formação e exercer plenamente o direito de viver a universidade. 


Se as políticas de cotas responderam à pergunta de quem pode entrar na USP, a permanência estudantil continua levantando outra questão, talvez ainda mais urgente: quem consegue viver plenamente a universidade? 



Referências 

GAZETA ARCADAS. Editorial sobre os episódios de racismo e aporofobia nos Jogos Jurídicos de 2024. Disponível em: https://www.gazetaarcadas.com. Acesso em: 31 jul. 2026. 

JORNAL DA USP. "Permanência estudantil não é apenas auxílio financeiro", afirma reitor da USP. 2 jun. 2026. Disponível em: 

UOL NOTÍCIAS. 'Bandejão' e verba à permanência estudantil: saiba por que alunos da USP estão em greve. 27 abr. 2026. Disponível em: 

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