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Artacho Jurado: entre a aparência e a realidade

  • Vinicius de Oliveira
  • 27 de set. de 2024
  • 5 min de leitura

Verdade formal e verdade material: essa é apenas uma das diversas dualidades platônicas que nos acompanham desde os primeiros passos nestas Arcadas. O que será mais determinante na hora de vencer um embate jurídico? Como bons franciscanos, aprendemos com os mestres desta casa e repetimos à exaustão: depende. As circunstâncias fazem a necessidade.


Essa dicotomia foi o que mais me chamou atenção quando visitei a exposição “Artacho Jurado, arquiteto?”, exibida pelo Museu da Cidade de São Paulo em sua unidade da Chácara Lane, em novembro de 2021. A mostra gratuita traz à tona a história de João Artacho Jurado, arquiteto autodidata que projetou sua fama sobre o processo de verticalização sofrido pelas metrópoles paulistas a partir da segunda metade do século passado.


Sobre a Chácara Lane: breve relato de um novo velho espaço


O imóvel, localizado na Rua da Consolação, 1024, próximo à pequenina escolinha da Consolação (e não, não estou falando da EMEI Gabriel Prestes), é uma relíquia, um monumento à memória de uma São Paulo que, na prática, desapareceu, mas que resiste simbolicamente na forma dos casarões tombados de Higienópolis e Cerqueira César.


Originalmente, o terreno da chácara pertencia ao missionário presbiteriano George Chamberlain, onde ele fundou a sede da Escola Americana, que daria origem à Presbiteriana Mackenzie. No entanto, parte do terreno foi vendido no final do século XIX pela viúva de Chamberlain ao médico Lauriston Job Lane, que ergueu ali o casarão como consultório para atender seus pacientes da elite cafeeira e industrial.


Até o começo do século XX, a Chácara Lane resistia ao projeto de urbanização desenfreada motivado pelas transformações econômicas e sociais experimentadas pela capital paulista, até que foi comprada pela Prefeitura em 1944, com intuito de realizar loteamentos do terreno. Tal projeto não aconteceu em razão do desenho urbanístico da área, que não seria adequado para a construção de residências, e também por pressão dos moradores do bairro, contrários à ideia de serem construídas moradias populares no quintal de suas casas.


De lá pra cá, o imóvel já serviu a diversos usos: foi sede do Arquivo Histórico Municipal e também Biblioteca Circulante da Secretaria de Cultura, até que foi tombado em 2004 e, após uma série de reformas e obras revitalizantes, tornou-se parte do Museu da Cidade de São Paulo em 2012.


Apesar de seu passado profundamente baseado na concentração de riqueza e poder deste país, alegra-me o fato de haver uma escola municipal colada ao espaço cultural, que funciona como verdadeiro portal do tempo para os alunos da EMEI Gabriel Prestes e para quem mais explorar esta efígie oitocentista.



















Foto da fachada da Chácara Lane, escondida entre o vai e vem incessante da Rua da Consolação



Sobre Artacho Jurado: arquiteto de uma metrópole em crise de identidade


Filho de anarquistas espanhóis refugiados do franquismo, João Artacho Jurado iniciou sua carreira profissional pelo ramo da publicidade e cresceu ao projetar e organizar os principais estandes e letreiros das feiras nacionais, eventos popularizados pelos conglomerados industriais já na década de 40. É em meio a essa atividade que ele recebe suas primeiras (e únicas) lições sobre projetos arquitetônicos, construção civil e marketing promocional.


Artacho Jurado nunca teve formação acadêmica como arquiteto, mas apesar disso, já nessa época idealizava prédios e pedia para algum arquiteto assinar as plantas que imaginava. Constantemente fiscalizado pelo CREA, nas placas de suas obras seu nome não podia figurar em tamanho maior do que o nome do engenheiro responsável. No entanto, Artacho Jurado dificilmente obedecia à imposição, aumentando a ira de alguns arquitetos, que consideravam ultrajante sua atuação profissional. Paralelamente, a mesma transformação urbana que desconectaria a Chácara Lane de seu tempo, concebia uma São Paulo vertical, barulhenta e caótica, como a conhecemos hoje.


Fotos dos arredores do Vale do Anhangabaú na década de 50 e 70, destacando a popularização de edifícios no Centro de São Paulo


Os espigões já se multiplicavam no Centro, as ruas precisavam ser alargadas e o populacho precisava ser expulso para as periferias, longe dos centros comerciais e dos aparelhos estatais de garantia de direitos sociais. Esse ritmo de crescimento é o que daria a tônica dos empreendimentos lançados pela Construtora Anhanguera, fundada por Artacho Jurado e sucedida pela Construtora e Imobiliária Monções S/A, fundada em conjunto com seu irmão, Aurélio, em 1945.


Foi pela Monções S/A que Jurado promoveu suas grandes obras, erguidas principalmente no período de 1947 a 1963, projetadas ao som de ópera e buscando atender a classe alta da cidade, com seus edifícios que abarcavam uma série de serviços e opções de lazer, o que era bastante incomum à época: piscinas, cinemas, brinquedotecas, estacionamentos, jardins suntuosos e terraços com bar na cobertura (onde eram promovidas as festas de inauguração) eram comuns em suas obras.


Artacho Jurado faleceu em 1983, tendo suas obras relegadas ao kitsch e, frequentemente, ao acerto por acaso, sendo que o reconhecimento por seu trabalho só veio anos depois de sua morte.



Sobre a exposição: aquarela de formas e dúvidas


A exposição, disposta a partir de vários momentos da vida de Artacho Jurado, lançou então um olhar sobre o estilo que foi desenvolvido por ele. Vindo do mundo de cores e luzes das feiras industriais, seu trabalho é facilmente reconhecível pelo exagero na disposição de recursos formais e pela riqueza de elementos ornamentais e de acabamentos extravagantes evocando os sonhos hollywoodianos do pós-guerra em uma mistura de estilos e linguagens.


Isso pode ser facilmente confirmado ao observar a fachada do Edifício Bretagne, do Edifício Viadutos, do Edifício Louvre e tantos outros de sua autoria, espalhados principalmente pelo Centro de São Paulo e Santos.




Fotos dos Edifícios Cinderela (ao lado) e Bretagne (acima), projetados por Artacho Jurado, que ficam na região de Higienópolis.









Por essas características, que iam de encontro às tendências da arquitetura moderna (baseada em preceitos anti decorativos e na geometria pura, herança do ideário modernista) e pelo seu sucesso comercial, Artacho Jurado frequentemente era visto como um profissional controverso, rejeitado pela academia e aclamado pelo público de seu tempo.


Desse momento em diante, a exposição conduzia o visitante ao questionamento que a nomeia, instigando-o a meditar sobre a importância desse profissional para a história da arquitetura urbana brasileira.


Teria sido Artacho Jurado, um arquiteto, ainda que não possuísse educação formal, nem tivesse interesse em se aproximar da técnica das escolas de arquitetura e urbanismo? Ou poderíamos dizer que este profissional, que empreendeu tantos projetos na paisagem urbana, era um não-arquiteto?


Nessa toada, não poderia deixar que me escapasse a associação com nosso próprio não-jurista, Luiz Gama. Apesar do histórico apagamento de sua memória enquanto advogado (a OAB só o reconheceu em 2015, 133 anos depois de sua morte), Gama atuou na libertação judicial de mais de 500 escravizados e representou interesses de pobres e imigrantes.


É sobre esses alicerces que construo a laje da minha própria reflexão: será que o dilema existencial de Artacho Jurado poderia ensinar a nós, estudantes desse Largo São Francisco, algo sobre a importância de interpretar a realidade através das relações materiais que esta guarda com as verdades formais do Direito?


Isto posto, ainda que a exposição tenha se encerrado, em decorrência do lapso temporal entre a manufatura deste texto e sua publicação, convido a todos a tirarem suas próprias conclusões sobre a vida e a obra do polêmico Artacho Jurado a partir da observação de seu legado nas ruas e avenidas de São Paulo.


E sobre a dúvida que lancei, limito-me a reproduzir um trecho do Profº Michel Miaille, segundo o qual, a análise materialista da realidade

desbloqueia o estudo do direito do seu isolamento, projecta-o no mundo real onde ele encontra o seu lugar e a sua razão de ser, e, ligando-o a todos os outros fenômenos da sociedade, torna-o solidário da mesma história social".

Informações do espaço

Chácara Lane | Museu da Cidade de São Paulo

R. da Consolação, 1024 – Consolação – São Paulo – SP (próximo à estação Higienópolis-Mackenzie da Linha 4 do metrô)

Terça a domingo, das 9 às 17h

Entrada gratuita, sem necessidade de agendamento ou retirada de ingresso.

Serviço educativo disponível.

Para mais informações, acesse https://www.museudacidade.prefeitura.sp.gov.br


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