Duas xícaras de chá

Fotografia por Beatriz de Oliveira Lima
Os seus olhos, vidrados naquele bule de chá, encaravam de baixo. E era engraçado ver uma menininha tão pequena com olhos tão grandes. Ela brincava sim. Mas era disso que realmente gostava. De observar por baixo e de imaginar por cima. Era como colorir. Não desenhava nunca, mas coloria os desenhos que a sua avó fazia. Respeitava aquelas estruturas, nunca deixava o lápis sair das bordinhas. Ordenadamente, espalhava a cor com rápidos movimentos circulares, assim como ela havia lhe ensinado.
Gostava da forma do bule de chá, todo redondo. E ainda tinha aquela curvaturinha um pouco mais reta na ponta e comprida, sobre a qual subia a fumaça e com a qual despejava o chá quente, borbulhante. As bolhas se formavam sobre o líquido. E eram redondas como a avó. Adorava as formas redondas. Pareciam coisas moldadas e esculpidas por mãos enormes e invisíveis. Tão raro. A avó tirava a tampa do bule. Seriam assim as cirurgias de cabeça? Retiravam a tampa da cabeça e os pensamentos borbulhavam sobre as mãos dos médicos?
A pele morena, os cabelos pretos, o corpo redondo. Desligou o fogão, girando aquela rodinha.
O chá estava pronto. A cozinha amarela era um ótimo lugar. Observava a avó andando de um lado para o outro, com os seus chinelos de borracha. Mancava um pouco de uma perna. Mas o movimento era mais ordenado do que os passos retos de seu pai. Passos instáveis. Ora muito acelerados, ora muito lentos. Às vezes, arrastava a menina pelas ruas da cidade. Às vezes, desacelerava à força, apertando os seus bracinhos. Dos passos mancos da avó, sempre sabia o que esperar. Mancava como quem marcava o tempo. No ritmo do pêndulo de um relógio.
Segurou, com as mãos pequenas, aquele bule. “Cuidado que está quente”, disse a avó. Mas o grosso pano de prato protegia muito bem as mãos da pequena. Ela observou-a abrindo o armário alto e segurando, com uma só mão, duas xícaras de chá. Sentia-se impotente com as suas pequenas mãos, envolvidas naquele pano. Mal tinha a força necessária para segurar um bule. “Mas quando eu for grande, vou conseguir”, pensava a garota. Daqui a alguns anos, seguraria duas xícaras de chá em uma mão e um bule de chá na outra. Seria a mais delicada das garotas. “Com certeza, vou ser uma bailarina”, pensava. Dançaria, nas pontinhas dos pés, piruetas por todo o palco.
A avó posicionou as duas xícaras na mesa retangular. Arrastou a cadeira marrom, pronta para se sentar. “Vovó, não senta. Vamos brincar de cabaninha”, disse a garota. Encarou a neta por um instante. Com o corpo apoiado na cadeira, sorriu.“Tudo bem”, respondeu a avó, com um suspiro.
Tic-tac, tic-tac. Andavam pelo corredor escuro. Melissa dava passos curtos. Fixava o olhar nos conhecidos e curtos cabelos pretos. Sentia uma certa secura na boca. Um leve arrepio. As paredes tão grandes, o chão tão próximo. Não gostava da escuridão. Nela, as cobras se aproximavam. Sempre via os seus corpos no teto distante. Quando estava na cama, cerrava os olhos com força. Não queria vê-las novamente. Mas as imaginava. As cobras descendo pela parede. Até podia senti-las roçando os seus pés.
Lembrava da sensação de passar a mão em uma cobra, no zoológico “Coloca a mão, Melissa, para eu tirar uma foto”. A pele era gelada. A memória emergia. A mão macia e gelada. Os ossos quase maleáveis. “Não!”. Cruzava as vivas mãos suadas e começava a reza, como a avó havia lhe ensinado. “Pai nosso que estás no céu, senhor é o nosso nome, bendito seja aquele que….”. Não lembrava. Estava desprotegida.
Mas, naquele corredor escuro, aquela sensação estranha retornara. Borbulhando em sua cabeça. Cada vez mais quente. Subia, pelo ar, o vapor dos dizeres. Só restava, em si, o cristal do sentir, cada vez maior, à medida que se aproximava daquela grande porta de madeira, bem no final do corredor. Ela estava sempre fechada, aquela porta.
Deveria fechar os olhos? Mas tinha vergonha. A avó não poderia vê-la dessa forma, com os olhos fechados. Pensaria que ela era uma menina covarde. Seu pai havia lhe falado para não ser covarde. “Você já está com as boias no braço, é só pular. Eu não criei você para ser covarde”. Disse isso dentro da piscina. “Qual é o problema dessa menina? Que criança não gosta de nadar?”. Mas ela odiava a sensação. Seus pés não alcançavam o fundo e tinha que dobrar o pescoço para respirar. Era terrível.
A porta era alta e larga. A maior porta de toda a casa. Sempre fechada. Não entendia. Portas grandes eram feitas para muita gente passar. Por que não faziam uma portinha bem pequenininha? Tão pequena que ninguém fosse capaz de entrar. E, aí, nada seria capaz de sair. O que estiver lá dentro não sai também. E as duas ficariam protegidas.
A avó colocou as mãos na maçaneta. Uma mão bem grossa. Girava-a bem devagar para a direita. Era como se controlasse o tempo. O tempo também era redondo. Também girava para a direita. Só que, agora, um pouco mais devagar.
A porta se abriu. Tentava não fazer barulho. Passos curtos. Inaudíveis. Via a sombra um pouco curva da avó desaparecendo aos poucos. Será que ela também sentia medo? O quarto estava muito escuro. Não fosse pela pequena fresta de janela aberta, que espalhava a luz amarela, seria incapaz de ver as pernas do avô. Podia perceber que eram muito brancas. Suas manchas chamavam atenção. Por que a perna dele estava cheia de machucados vermelhos? Chegou um pouco mais perto. Agora podia ver aquelas unhas estranhas. Eram muito curtas. Não sabia que era possível alguém ter unhas tão curtas assim. Aproximava-se para ver melhor.
Havia encontrado algo novo. E não entendia o que estava passando a entender. Tentava se aproximar mais daquela cama. Não pôde disfarçar o sobressalto quando a avó apareceu de repente, com o grande cobertor azul em seus braços. Corou um pouco. Ela havia percebido que estava bisbilhotando.
Observava as rugas perto dos seus olhos. Voltava o olhar para as pernas manchadas. Queria perguntar. Mas não sabia o quê.
“Tá tudo bem, filhinha?”
“Tá sim, vovó”.
E seguiram, percorrendo a casa amarela. Descendo os degraus da escada. Chegando ao quintal.
Adorava o quintal. Colocava as suas asas cor-de-rosa em seus ombros com dois cordões, como se fossem uma mochila. Elas eram feitas de um tecido rosa brilhante, prendidos por um arame. E se sentia verdadeiramente mágica. Gostava muito das flores. A avó já havia lhe explicado tudo sobre elas. A que mais gostava era a dama-da-noite. Sempre olhava bem de perto a flor branca, na esperança de encontrar alguma fadinha de verdade. A observava, sentada na grama. As fadinhas, vivem presas dentro das flores. E à noite elas se libertam. Voam pela casa e protegem as pessoas das cobras.
Talvez.
Talvez as mulheres se tornem flores quando morrem.
Acariciava a flor que estava em suas mãos. Inclinou em direção a ela e pôde sentir o seu perfume. Deu um beijinho rápido em suas pétalas. Por cima de duas cadeiras, a avó esticou o cobertor azul. Era curiosíssimo perceber como dentro da cabana tudo mudava. O quintal se transformava em florestas boreais, com ursos e raposas. Melissa, uma bela fada, podia voar e andar sobre as flores. E a avó era uma rainha de um reino perdido. Foi a única que sobrou. “Rainha, a senhora aceitaria uma xícara de chá?”.
“Sim, fadinha”
Melissa despejou o chá na xícara da avó. Algumas folhas de erva caíram junto ao líquido amarelado. “Aqui está, senhora”.
“Muito obrigada”.
Observou seu rosto moreno. Quando sorria, linhas surgiam próximas aos seus olhos. Queria perguntar. Mas não perguntava. Achava aquilo muito bonito. Gostava dos olhos pretos da avó. Eram tão pequenininhos. Todos os adultos se assustavam quando viam os de Melissa. “Nossa, que olhos enormes”. Alguns até gargalhavam.
Queria ter os olhos pequenos da avó.
“Vovó, posso perguntar uma coisa?”
“Pode, filhinha”.
“Você tem medo?”
“Claro que sim”.
Melissa a olhou estarrecida. Seus olhos enormes, saltaram. E tornaram-se maiores ainda. “Pensei que gente grande não sentia medo”, disse envergonhada. Melissa podia jurar que a avó iria rir de sua burrice, mas ela lhe respondeu muito séria: ”Por que você pensa isso?”.
Observava Melissa em silêncio. A garotinha olhava para o chão e cantava melodias nervosas, enquanto enfiava o dedinho dentro do chá, fazendo movimentos circulares. “Melissa, do que você tem medo?” A garotinha fingia que não ouvia a pergunta da avó e cantava ainda mais alto. “La-La-La-Tu-Tu-Rum”.
“Olha, vovó! Olha o que eu sei fazer!”
Na tentativa de dar uma cambalhota, ouviu um estalo. Levantou-se num sobressalto. Não olhou para a asa. Bebeu um gole de chá. E tentou segurar o choro.
“Melissa! Você quebrou as asinhas”.
“Não quebrou não vovó”.
“Quebrou sim”.
“Não, vovó. Vai dar para consertar é só colar. Você cola para mim, vovó?”, disse bem baixinho, tentando controlar a voz trêmula. Melissa olhava ao redor. Estava no quintal. Estava embaixo de um cobertor azul. Havia uma cadeira de madeira atrás da avó. E ela a olhava com muita firmeza. “Não dá para colar, Melissa. Você estragou a sua asa”.
Sentia as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, sem controle algum. Mas não fazia barulho. Escondia sua cabeça entre os joelhos. E para se livrar da vontade de gritar, chacoalhava o corpo todo. As asinhas quebradas, apontadas para baixo, seguiam o movimento do choro. E pareciam dançar. Em cima e em baixo. Num ritual para o fim.
Lembrava de segurar as mãos grossas e ásperas da avó no cemitério. Lembrava de se prender totalmente ao seu corpo. Lembrava de não ter chorado nenhuma lágrima. Lembrava do céu laranja, sobre os túmulos. E chorava.
Mesmo que não a olhasse, sentia a rigidez do olhar da avó sobre si. Estava um pouco ofendida. Não teria nem um pouco de compaixão por sua tristeza? Havia lutado tanto para não chorar e não receberia nada em troca? Por que só a encarava dessa forma? Por que não a perguntava com palavras aquilo que queria saber? Perguntava com o silêncio. E aquilo doía. Doía muito fundo.
O seu corpo tremia inteiro. Já sentia a cabeça quente. E o nó na garganta. Ela precisava falar, mas não sabia como. “Eu tenho medo do vovô”.
“Por que você tem medo do seu avô?”. A menina não respondeu. Escondia o rosto entre os joelhos. “O problema do seu avô é que ele está muito triste, por isso nunca sai do quarto”.
Melissa respirava fundo. Parava de tremer aos poucos. Os olhos enormes surgiram, brilhantes. E sentiu muita pena. Não queria ter medo de suas pernas, medo de suas unhas, de sua porta. Porque ela também ficava muito triste. Todos os dias, quando o relógio batia. O cuco surgia. E o céu ficava escuro. “Mas, vovó, ele fica triste o dia todo?”, perguntou a garota. “O dia todo”.
Pensava no porquê a avó não parecia estar tão triste. Sentia que ela sabia de algo. Sabia de algo que ela não sabia. E queria aprender isso também. “Vovó, eu também tenho medo de outra coisa”.
“Do que filhinha?”
Ela ficou em silêncio por um longo segundo. Pensava. Olhando para cima. Segurando os pequenos pés com as mãos. “Eu tenho muito medo do escuro”.
As rugas se tornaram mais profundas. Dava um sorriso estranho. Invertido. Não conseguia decifrar se a avó estava feliz ou triste. Os olhos escuros se iluminaram de repente. “Vem, cá, Melissa. Vem dar um abraço na vó”.
Sua cabeça estava perfeitamente encaixada no pescoço da avó. E os braços grandes a envolviam com a força de quem não deixava uma fração de tempo passar. E ela balançava a garotinha. No ritmo de seu passo redondo. De um lado para o outro. Tic-tac. “Sabe quem também tinha medo do escuro, Melissa?”.
A garota permanecia em silêncio.
“Adivinha, Melissa”.
A menina não respondia. Todas as palavras estavam misturadas em seu corpo. E a portinha era muito pequeninha. Não conseguiam sair. Mas a avó continuava a falar. Ainda no balanço das palavras.
“Sua mãe”.
A menina prendeu a respiração por um momento. Em meio ao susto, tentava se concentrar no movimento do abraço. De um lado para o outro.



As infâncias são felizes, as infâncias com os avós são felicíssimas!