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GRITA O PERU

Kalel Rodrigues de Souza
15 de out.
3 min de leitura
Fotografia por Luisa Camara
Fotografia por Luisa Camara

Oba, é peruada! 

E de onde saíram esses perus?


A tradicionalíssima e mais conhecida lenda é a do surgimento da festa em 1948, a partir do roubo dos perus de um professor que muito os valorizava. Segundo tal versão, um professor da São Francisco (comumentemente identificado como Mario Masagão, lente de Direito Administrativo) era um excelente criador de perus e seus animais chegaram a ser premiados na Exposição Nacional de Animais, mas suas laravilhosas minhagens não se perpetuaram, pois os bichos foram roubados por um traquina grupo de franciscanos que teria incluído até mesmo o presidente do XI de Agosto na época, Rogê Ferreira. Fez-se um bom assado e é mais interesse acreditar na versão em que serviram as selecionadas estrelas a seu criador sem que ele suspeitasse. Carne de Damião.


Entretanto, já há registros anteriores de festas e desfiles de rua, organizadas tanto por acadêmicos de Direito quanto de outros institutos, denominados como “Peruada” e “peruadas” (nos arquivos do Estadão encontram-se notícias da década de 1930). Fontes apontam ligação entre o surgimento do nome e a cultura de subordinação entre “bichos enfeitados” (os segundanistas, que seriam os verdadeiros perus) e os “bichos”, que passavam então pelo trote derradeiro na passeata em tradições que remontariam à Coimbra.


Não se sabe ao certo de nada, mas ela aí está e amanhã novamente se verá a marcha político-etílico-carnavalesca fechar as ruas do centro de São Paulo como faz há décadas. Em um ano de atípicas eleições presidenciais e de deflagrada crise institucional nos três poderes, a Peruada pode servir para gritar alguns temores e anseios dos estudantes em meio à dionisíaca celebração que se seguirá. 


O “Grito do Peru”, evento que antecede em dois dias a grande celebração das ruas e que se concentra nas Arcadas, deu-nos indícios do brado estudantil na emissão de opiniões e lutas comuns que unem os quase sempre divergentes franciscanos. Neste peculiar rito, o professor leciona sobre temas de sua escolha até que todos se esgotem e, não podendo interromper a liturgia em caso de atraso, passa a utilizar todas suas habilidades didáticas e retóricas de anos de experiência para enrolar ensinando até que a procissão de Vitão e seus artistas batam incessantemente na porta e façam da sala de aula carnaval de madeira. No matutino, as professoras celebrantes, rubramente vestidas, foram Maria Paula Dallari Bucci, de Direito do Estado, e Ana Elisa Liberatore Silva Bechara, penalista e diretora das Arcadas durante o Bicentenário. À noite, em que se fez mais viva a voz dos jovens em seus coros e cantos, com apresentação posterior da BAISF, os docentes representantes foram Celso Fernandes Campilongo, último diretor e professor do Departamento de Filosofia do Direito, e Sérgio Salomão Shecaira, criminólogo que se aposentou no último ano.



Fonte: redes oficiais da Faculdade de Direito
Fonte: redes oficiais da Faculdade de Direito

Qual poderia ser, em um momento como este, o tema principal de tais lições que não a democracia? Falou-se sobre a importância da festa, o silenciamento durante a ditadura, a Constituinte, os direitos sociais, o irromper da década de 80, a necessidade de preservar as garantias constitucionais, impedir retrocessos e rir. Ridendo castigat mores. Não houve monólogo, e a todo momento os franciscanos demarcavam sua posição: cantos em homenagem a Luis Inácio Lula da Silva (PT), atual presidente e que concorre a seu quarto mandato, e jograis jocosos em relação a Flávio Bolsonaro (PL), ex-senador e adversário de Lula no segundo turno. O sinal do “L” foi feito tanto pelos discentes amontoados e sentados no chão quanto por aqueles que estavam no púlpito, e as manifestações repetiram-se nas marchas e brincadeiras. O mote da Peruada deste ano, inclusive, refere-se às eleições, especificamente às doações de Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre o pai de Flávio, que teria solicitado em áudios mais de cem milhões de reais destinados à produção do longa. Após uma votação em que concorria com outros destinados a combater escala 6x1, machismo, etc. ganhou o lema “Meu peru fez filme caro, quem pagou foi o Vorcaro!”. 


Brinquedos, futebol de sabão, bebidas, BAISF, porão. Quem sabe brilhou uma estrela por aí esta noite, filha da tempestade que esperou o grito do matutino acabar para afastar o infernal Sol que brilhava sobre nós e desabar sobre São Paulo até abrandar-se novamente, como se um peru mandasse nas ordens celestiais. E talvez seja para este lampejo celestial que tudo se faça: talvez a solenidade ritual da quarta se consuma na sexta e alguma coisa que nem saibamos o que é aconteça e grite um peru:

  Glu-Glu.

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