Semana do Estágio na Sanfran: o que o mercado procura nos estudantes
Maior Feira de Estágio Jurídico da América Latina reuniu empresas, bancos e escritórios; evento foi promovido pela SanFran Jr. entre os dias 15 e 17 de setembro

Ilustração por Ricardo Satoshi Yamassaki
A SanFran Jr., empresa júnior vinculada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP), promoveu entre os dias 15 e 17 de setembro a Semana do Estágio no prédio no Largo de São Francisco, capital paulista. Considerada a maior Feira de Estágio Jurídico da América Latina, o evento reuniu estudantes da Faculdade de Direito da USP e representantes de empresas, bancos e escritórios para discutir oportunidades de entrada no mercado jurídico.
![Estudantes conversam com representantes de empresas durante a Semana do Estágio 2026, realizada pela SanFran Jr. na Faculdade de Direito da USP. [Matheus Freitas/Arquivo Pessoal]](https://static.wixstatic.com/media/db27cd_c81bad52e4c5488da6d70487707cfdcb~mv2.png/v1/fill/w_980,h_1014,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/db27cd_c81bad52e4c5488da6d70487707cfdcb~mv2.png)
Tradicionalmente realizada no primeiro semestre, a Semana do Estágio ocorreu apenas em setembro deste ano em razão da greve dos estudantes da Universidade de São Paulo, ocorrida entre abril e maio. O adiamento, porém, não diminuiu a movimentação. Durante os três dias, estudantes circularam pelos estandes, conversaram com recrutadores e conheceram oportunidades de entrada no mercado jurídico e empresarial.
A programação reuniu instituições como Mattos Filho, Santander, BTG Pactual e Pinheiro Neto Advogados, além de palestras e conversas sobre carreira, recrutamento e as transformações do mercado jurídico.
O que o mercado procura?
A Feira de Estágios também colocou empresas e estudantes diante de uma questão: o que o mercado procura em quem está começando a carreira? Para muitos estudantes, a imagem do candidato ideal está associada à fluência em línguas estrangeiras, boas notas, domínio técnico e um currículo capaz de demonstrar excelência acadêmica.
Essa percepção não é recente: em 2004, a revista Consultor Jurídico já descrevia o processo seletivo para estágios em grandes escritórios como quase um “vestibular”, em matéria intitulada Seleção de estágio em escritórios é quase um vestibular. A dinâmica da feira, porém, mostrou que outros aspectos também estão presentes nas conversas entre recrutadores e candidatos. Nos estandes, representantes das instituições conversaram com estudantes sobre suas trajetórias, interesses, experiências e expectativas profissionais. O currículo continua sendo uma porta de entrada, mas não necessariamente conta toda a história de quem está atrás dele.
É o que destaca Maximilian Fierro Paschoal, sócio do Pinheiro Neto Advogados, que observa uma mudança na forma como os escritórios analisam os futuros estagiários. “O escritório busca estudantes curiosos, focados, interessados em aprender e capazes de se desfazer de possíveis preconceitos”, afirma.
Para Paschoal, em um mercado em que o conhecimento jurídico precisa dialogar cada vez mais com negócios, tecnologia, finanças e diferentes áreas de atuação, a disposição para aprender pode ser tão relevante quanto aquilo que já foi acumulado durante a graduação. Também ganham espaço as habilidades interpessoais, como boa comunicação, capacidade de trabalhar em equipe e abertura para diferentes perspectivas. A diversidade, por sua vez, ocupa espaço crescente nos discursos e nas estratégias de contratação das empresas, com escritórios incentivando a candidatura de pessoas negras e LGBTQIA+, por exemplo.
O que os franciscanos acham?
Para os estudantes ouvidos pela Gazeta Arcadas, a feira revelou que não existe uma única maneira de chegar ao mercado. Ao mesmo tempo, conciliar a graduação com um estágio remunerado continua sendo uma preocupação para aqueles que precisam trabalhar durante a faculdade.
Beatriz Mariane, estudante da turma 199, comentou que a feira também serviu para conhecer instituições que até então não faziam parte de seu radar profissional. “Tinha escritórios super legais que eu nunca tinha ouvido falar e só descobri por causa da feira”, conta. Depois do evento, passou a acompanhar alguns deles nas redes sociais.
A experiência também revelou, para a estudante, diferenças entre os próprios processos seletivos. Segundo Beatriz, enquanto algumas empresas adotam etapas mais simples, outras exigem uma sequência mais extensa, que pode incluir gravação de vídeos em diversas fases da seleção. Para estudantes no início da graduação, as oportunidades também podem ser mais restritas, concentrando-se principalmente em programas de estágio de férias.
Tecnologia
A feira também colocou diante dos estudantes uma questão sobre as transformações do mercado jurídico. Com os avanços da inteligência artificial e de outras tecnologias aplicadas ao Direito, parte das tarefas que antes dependiam exclusivamente do conhecimento e do trabalho operacional do profissional pode ser auxiliada por ferramentas tecnológicas.
Nesse cenário, habilidades como a capacidade de formular boas perguntas, interpretar contextos, comunicar ideias e trabalhar em equipe ganham novos contornos. O domínio técnico continua sendo indispensável, mas passa a dividir espaço com competências relacionadas à adaptação e à interação com diferentes pessoas e áreas.
![Profissionais participam da palestra “Explorando o Direito: Direito Societário”, que abordou Direito Societário, M&A, infraestrutura e mercado de capitais. [Matheus Freitas/Arquivo Pessoal].](https://static.wixstatic.com/media/db27cd_03e1a7acac074a9292be62870a5b57ab~mv2.png/v1/crop/x_0,y_0,w_1120,h_1060/fill/w_1120,h_1060,al_c,q_90,enc_auto/db27cd_03e1a7acac074a9292be62870a5b57ab~mv2.png)
As discussões sobre as possibilidades de carreira também apareceram nas atividades da programação. Na palestra “Explorando o Direito: Direito Societário”, profissionais de diferentes instituições compartilharam experiências sobre áreas que muitas vezes permanecem pouco conhecidas por estudantes nos primeiros anos da graduação.
Ao abordar temas como Direito Societário, M&A, infraestrutura e mercado de capitais, a atividade apresentou diferentes formas de atuação no universo empresarial e mostrou como o trabalho jurídico pode se relacionar com decisões estratégicas, operações e diferentes setores da economia.
Para estudantes que ainda estão definindo seus interesses profissionais, o contato com profissionais de áreas distintas também permite compreender que a carreira jurídica não se limita à atuação tradicional em escritórios. As experiências apresentadas durante a palestra ampliaram o contato dos alunos com possibilidades de especialização e ajudaram a aproximar a formação oferecida pela Faculdade das demandas e oportunidades encontradas no mercado.
A programação mostrou, ainda, diferentes caminhos de entrada no mercado jurídico. Enquanto alguns estudantes acumulam extensões, entidades, cursos e experiências profissionais, outros precisam conciliar a graduação com um estágio remunerado desde os primeiros semestres. As trajetórias são diferentes, mas ambas chegam aos mesmos corredores quando o mercado vem à Sanfran.
O mercado bate à porta. E, se antes parecia necessário chegar com todas as respostas, a nova pergunta talvez seja outra: quem está disposto a entrar, aprender e construir as próprias respostas ao longo do caminho?



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