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Infantino cavou a própria cova ao cortejar Trump

Thomaz Silva Honorio
23 de set.
7 min de leitura

O suíço provavelmente está com seus dias contados na presidência da FIFA, muito por causa de seu erro estratégico


Fotografia por José Ricardo Kishi Costa Silva


Quando a notícia vazou, o plano de Gianni Infantino foi recebido com quase unânime desaprovação. A ideia do presidente da Fifa era criar uma subsidiária para gerir as competições organizadas pela entidade, incluindo a Copa do Mundo, e a vender uma participação de 20% nessa subsidiária ao capital privado, levantando cerca de 4,2 bilhões de dólares em investimento. A primeira a se manifestar foi a confederação europeia de futebol (Uefa), que declarou sua intenção de boicotar as competições chanceladas pela confederação caso o plano fosse adiante. Muitas federações nacionais de futebol de outros continentes também declararam seu repúdio logo em seguida, e a cobertura da mídia seguia o mesmo tom. Certamente, esperava-se alguma resistência ao projeto, mas uma reação dessa magnitude, além de causar surpresa, prejudicava seriamente a campanha do suíço à reeleição. A despeito de tudo isso, tudo ainda estaria bem se sua estratégia, que passara o último ano preparando, desse certo. Não deu: num resultado bastante previsível, Donald Trump ignorou suas ligações solicitando uma reunião. Um ano de planejamento jogado no lixo.


Antes de tudo, e apesar do que ainda será dito, é preciso fazer justiça ao cartola, a começar pelo fato de que a Fifa corteja os EUA há décadas. Em 1988, quando o brasileiro João Havelange presidia a organização e o país norte-americano foi escolhido para sediar o Mundial de 1994, o soccer atraía tão pouco interesse do público local que a principal competição nacional era amadora, e a seleção não disputava a Copa desde 1950. Mesmo assim, o potencial mercado era grande e rico demais para ignorar, e a organização chegou a propor dividir os jogos daquela Copa em quatro quartos em vez de dois tempos, com a intenção explícita de agradar os patrocinadores do país, e aumentar o tamanho dos gols para que a pontuação se parecesse mais com a dos esportes mais populares por lá. Mesmo que essas propostas não tenham sido discutidas com muito afinco, servem para ilustrar o tamanho da necessidade que se sentia de atrair o interesse do público do país.


Desde então, o USMNT jogou todas as Copas com a exceção de 2018, e o esporte tem um forte nicho: a liga local (Major League Soccer) atraindo cerca de 25 mil torcedores por partida em 2024, e mesmo as divisões inferiores atraem públicos semelhantes às séries B e C brasileiras. A fome, contudo, não passou. Vendo o quanto o público ianque gasta com seus esportes favoritos e o quanto um aumento de popularidade poderia render em direitos de TV, o futebol da bola redonda continuou tentando alcançar seu primo da bola oval. Os horários dos principais jogos da liga inglesa hoje são definidos com a audiência norte-americana em mente, e o presidente da liga espanhola, Javier Tebas, já manifestou mais de uma vez sua vontade de realizar jogos em Miami (no que encontra a oposição dos clubes). A Fifa, claro, não ficaria para trás em qualquer corrida do ouro, mas por décadas seu foco foi em outros mercados de ganho mais imediato, como os países do Golfo com seus petrodólares; foi apenas no mandato de Infantino que os EUA ressurgiram como sedes recorrentes, numa estratégia completamente legítima e sensata do ponto de vista monetário, que sempre foi o único de interesse dos manda-chuvas do futebol mundial.


O problema é que Infantino não esperava ter de lidar com Donald Trump, ou ao menos com essa versão de Donald Trump. A proposta conjunta de EUA, México e Canadá para sediar a Copa de 2026 ganhou a votação em 2018 (e estava nos preparativos desde bem antes disso), e a ideia da expansão do Mundial de Clubes para seu formato atual foi ventilada pela primeira vez em 2019. Em qualquer projeção sã feita à época, Trump já teria cumprido seus dois mandatos como presidente em 2026 ou estaria velho demais para retornar à política. Mesmo que continuasse em cena, isso não era visto necessariamente como empecilho, pois o comportamento do presidente em seu primeiro mandato, em que ainda era cercado do establishment do Partido Republicano, era substancialmente diferente e bem mais previsível. Mas, depois de perder as eleições de 2020 e quase ficar inelegível após a invasão do Capitólio no ano seguinte, Trump expurgou de seu entorno qualquer um que oferecesse algum tipo de resistência a suas ideias, e tem agido como bem entende desde que voltou ao cargo, sem ninguém em seu círculo que se atreva a discordar. A principal repercussão disso no mundo do futebol, à altura do ano passado, era causada pela intensificação da crise diplomática com o Irã, que chegou ao ponto de um confronto militar de doze dias com Israel. O Irã foi uma das primeiras seleções a se classificarem para a Copa, e a Fifa, vendo Trump apoiar o governo israelense, foi forçada a contemplar a possibilidade de algo inédito em seu grande torneio: o país anfitrião entrando diretamente em guerra com um de seus hóspedes.


Infantino, claro, não tinha ilusões de que seria capaz de influenciar a política externa da maior potência global, mas ao ver o espetáculo (e o dinheiro) ameaçado, iniciou sua operação de contenção de danos. A estratégia era simples: ganhar a simpatia do colega presidente a todo custo, transformando-se em capacho, para assim não o contrariar e impedir maiores máculas ao espetáculo (e ao dinheiro). Para tanto, o suíço perdeu completamente a noção do ridículo já no primeiro grande ato nessa direção, ao criar o “Prêmio Fifa da Paz” e concedê-lo a Trump durante a cerimônia do sorteio dos grupos da Copa, em novembro do ano passado. Era uma clara tentativa de massagear o ego do estadunidense, ferido desde sua não indicação ao Nobel da Paz, de que se considerava merecedor por ter supostamente negociado o fim da guerra entre Israel e Irã. Menos de seis meses depois, o primeiro laureado do Prêmio Fifa da Paz declarava guerra ao Irã, tornando real o cenário que Infantino mais temia.


Diante de tal cenário, um bom cartola (talvez da escola Blatter e Havelange) buscaria na hora alguma garantia da segurança dos atletas iranianos na Copa, mas, sem oposição alguma por parte da organizadora do evento, Trump avisou com todas as letras que eles não seriam bem-vindos no país. Eventualmente, e para certo crédito do mandatário, negociou-se um acordo em que a delegação iraniana seria liberada para jogar as partidas da Copa em solo americano, mas teria de retornar à sua concentração no México imediatamente após cada apito final. Às vésperas do torneio, outra polêmica surgiu quando o árbitro somali Omar Artan, convidado pela Fifa para apitar jogos da Copa, teve seu visto de entrada nos EUA negado puramente por sua nacionalidade. Se você prestou atenção até agora, sabe o desfecho: nada foi feito e Artan teve de desistir do sonho. Por fim, já durante a competição, quando o atacante e destaque estadunidense Folarin Balogun levou um cartão vermelho na vitória sobre a Bósnia e foi suspenso para o jogo das oitavas de final contra a Bélgica, a Fifa suspendeu a suspensão por um ano no dia seguinte, permitindo que ele jogasse normalmente. Essa medida não acontecia em Mundiais desde 1962, quando Garrincha foi liberado para jogar a decisão depois de ser mandado ao vestiário mais cedo na semifinal.


Findo o torneio, Infantino merecia mais um pouco de crédito, uma vez que o espetáculo em campo tinha sido um sucesso e transcorrido sem grandes incidentes fora o de Balogun, ainda que acusações pouco fundadas de favorecimento à Argentina viralizassem. A relação do cartola com o presidente também parecia ir de vento em popa, com o estadunidense chegando a sugerir que apoiaria uma eventual candidatura do suíço à secretaria-geral das Nações Unidas. O mais novo capítulo dessa linda amizade, ainda restrito aos bastidores, era o Fifa Forward Enterprise, o projeto aludido no primeiro parágrafo. A empresa que estava prestes a adquirir a referida participação de 20% era a Thrive Eternal, empresa de investimentos de Joshua Kushner, filho do genro e assessor de Donald Trump, Jared. Esse projeto, se vazasse ou fosse anunciado na hora errada, comprometeria seriamente a então bastante provável reeleição de Infantino em 2027; talvez ele pensasse que a afinidade compartilhada pelo tráfico de influência os tornaria ainda mais próximos.


Para um corrupto tão notório, falta a Infantino muito traquejo para a coisa, por ter acreditado que Donald Trump pudesse ter amigos ou mesmo aliados duradouros, e por ter acreditado que o melhor jeito de lidar com o presidente era se rebaixar à condição de capacho para não o irritar. Na realidade, não há quase nada que ele goste mais nesse mundo que pisar nos seus muitos capachos. Nada ilustra mais essa paixão que a ocasião em que presenteou seus assessores com sapatos ligeiramente grandes demais, como um teste de lealdade, para ver quem iria se expor ao ridículo e usá-los na reunião do dia seguinte (todos o fizeram). Gianni Infantino acreditou, do fundo de seu coração, que esse homem pagaria uma dívida de gratidão. E quando as notícias do Forward Enterprise vazaram e ele via seu apoio sumir, foi com essa crença que telefonou à Casa Branca perguntando de uma reunião; "que reunião?”, foi a resposta. Pisado, o capacho teve de cancelar seu projeto, e agora enfrentará uma campanha eleitoral que ele próprio tornou dura.


Referências bibliográficas


1- Redação Terra. Infantino buscou apoio de Trump após fracasso de plano na Fifa, diz NY Post. Disponível em: <https://www.terra.com.br/esportes/infantino-buscou-apoio-de-trump-apos-fracasso-de-plano-na-fifa-diz-ny-post,942ff36eefd4e0dd9259cd864fc0a7c7rdzlbebm.html>. Acesso em: 6 ago. 2026.

2- FRANEY, James. Under-fire FIFA boss Gianni Infantino begs Trump White House to save his job: sources. Disponível em:<https://nypost.com/2026/08/03/business/fifas-infantino-begs-trump-admin-to-save-his-job/>. Acesso em: 7 ago. 2026.

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5- MAIDMENT, Paul. This Game Is Brought To You By ... Forbes, 14 dez. 2006.

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10- MCINTYRE, Doug. USA Star Folarin Balogun Cleared To Play In World Cup Match vs. Belgium. Fox Sports. Disponível em:<https://www.foxsports.com/stories/soccer/usa-star-folarin-balogun-play-world-

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11- SLATER, Matt. FIFA plans to sell a stake in the World Cup: How much for and why is Gianni Infantino doing it? The New York Times, 28 jul. 2026.

12- CAFOLLA, Anna. On Marco Rubio’s Too-Big Shoes and the Anxious Vanity of the Trump AdministrationVogue. [S.l.: S.n.]. Disponível em:

<https://www.vogue.com/article/marco-rubio-too-big-shoes>. Acesso em: 7 ago. 2026.

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