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mil e uma palavras

Kalel Rodrigues de Souza
2 de out.
3 min de leitura

Fotografia por José Ricardo Kishi Costa Silva


os livros naquelas estantes já estavam escritos

descritos antes, impossível que pudessem servir

vês que poderia ser o bastante, mas quão difícil unir

as páginas vazias de romances, contos e poesias

para nelas escrever mil instantes, reler, e talvez deixar ir


a tampar as janelas, e as paredes sem nada ouvir

quando se fala por horas, e na mente uma lembrança

uma memória turva travada em esperança que, agora

deixa apenas um resquício demente, pensamento escória

um rum misto dormente de fonemas da maior importância

que na lambança da passagem do tempo, em duras penas

realizam pura massagem de neurônios extasiados e tontos

e, com o esquecimento e os poemas, o reconhecimento de que o pensado

o que iria se dizer, se fazer, não bem planejado, se faria num intento

foi muito melhor do que o dito, inutilizado pelo não dito,

desesperado e atento, o êxtase destruidor e criador de almas,

como se esquecesse de uma dor e se protegesse de um trauma

apaga em pleno funcionamento de todo hormônio o intento de um sonho

e nesse sonho enfadonho, resta um silêncio onde era o grito que era


dentre todas as rodas ocultas por panos vívidos e coloridos

onde se adentra em anos escuros e sentimentos escusos

o lenço cor-de-rosa choque é o único que pode ser escolhido

porque reside no fundo de um mundo que logo que se traz se faz

e, ao redor dela, são despidos os que logram despedidos segredos

ríspidos gracejos advindos de antigos medos, suntuosos e ermos

deliciosos jantares nunca feitos, devorados por ratos e morcegos

onde servos de Ares recriam credos e guerras, por todas as eras

donde vejo quem eras e descubro incrédulo, nego, que erras

pois a esperar a quietude, que se feche viva e nunca se abra a porta


de fora, e se abra morta a de um agora, eterna solitude a dois

se for feita a pergunta malfadada, tinha que ser feita, tinha que ser

nessa mesa que oculta os canais das trevas com dengosa cor-de-rosa,

é me dada a mais cruel e certa certeza, sai de sua boca como mel

e ai de mim, tão precoce fim, rasga meus ouvidos como fel,

que, mesmo esquecidos, vez ou outra ressoam cacos desse dia

a repetir tuas heresias, proibidas alforrias, tuas minhas, eu sou,

sou eu, sim, certeza, mesmo, eu sou, cem porcento, ah, eu já sabia!

já sim, estava na tua cara, na tua face nua tua paixão cara, mas eu já sou

perdão, desculpa, não é minha culpa, oh, mas saibas que se eu não fosse, seria

sou, eu sou, sim, com certeza, é meu defeito, minha natureza, te digo aqui nessa mesa

não, não tem como, não tem modo nem jeito, ah, mas saibas que se eu não fosse, seria


é mentira brandir que não houve trovão a anunciar tal tempestade

é pecado fingir que não houve clarão de sanidade a tentar lumiar

entretanto não há força divina maior que tua absoluta potestade

e não há beldade deífica que possa impedir a fuga da realidade

nem que me faça poder poder ter a ti, ser amizade, ímpeto, ser e verdade

te perco nesta vida e te desejo na outra e, alcoolizado num mangue de sobriedade

me embebedo no vinho que escorre de minhas feridas como se fosse teu sangue

é que teu riso chegou em estrondoso gargalhar ácido e fugiu tão tímido e piedoso

teu tom ao proferir as mais doces atrocidades era o som dos condenados ao Hades

a arder no mais cálido fogo, poço ardente do meu prazer temente e sádico

no purgatório, ainda em um pior pulsante coração, ato declaratório em que te amaldiçoo,

te abençoo, e redijo a lancinante confissão de que até a morte seria menos falta de sorte

seria, se fosse, sofrimento de tênue tormento e, se comparada, ironia de menor porte


para a cadeira sem eira nem beira falta uma perna e, para mim, uma faca

para o móvel, faz a prótese de natura matéria do pó da terra, com galhos e cipó

prendendo-a como tua Eva, hera venenosa misericordiosa, atura e abandona-a

para mim, dispensas facas, afinal, preciso apenas guardar tua tesoura

cortarei meu eu com tal tesoura sem ponta, matança moura à tua imagem e semelhança

rasgar meu corpo estorvo, trucidar meus pulsos, impulsos, até arrancar tonta toda a pele

sem fé destruir toda matéria física de minha existência, revelar miséria mística que velo


eu sou tu: se não tu, tentativa de ser o que fui; quando não teu inimigo, teu amigo,

impotência frente tua onipresença; quando não teu pai, teu filho; quando teu ai, teu oi

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