mil e uma palavras

Fotografia por José Ricardo Kishi Costa Silva
os livros naquelas estantes já estavam escritos
descritos antes, impossível que pudessem servir
vês que poderia ser o bastante, mas quão difícil unir
as páginas vazias de romances, contos e poesias
para nelas escrever mil instantes, reler, e talvez deixar ir
a tampar as janelas, e as paredes sem nada ouvir
quando se fala por horas, e na mente uma lembrança
uma memória turva travada em esperança que, agora
deixa apenas um resquício demente, pensamento escória
um rum misto dormente de fonemas da maior importância
que na lambança da passagem do tempo, em duras penas
realizam pura massagem de neurônios extasiados e tontos
e, com o esquecimento e os poemas, o reconhecimento de que o pensado
o que iria se dizer, se fazer, não bem planejado, se faria num intento
foi muito melhor do que o dito, inutilizado pelo não dito,
desesperado e atento, o êxtase destruidor e criador de almas,
como se esquecesse de uma dor e se protegesse de um trauma
apaga em pleno funcionamento de todo hormônio o intento de um sonho
e nesse sonho enfadonho, resta um silêncio onde era o grito que era
dentre todas as rodas ocultas por panos vívidos e coloridos
onde se adentra em anos escuros e sentimentos escusos
o lenço cor-de-rosa choque é o único que pode ser escolhido
porque reside no fundo de um mundo que logo que se traz se faz
e, ao redor dela, são despidos os que logram despedidos segredos
ríspidos gracejos advindos de antigos medos, suntuosos e ermos
deliciosos jantares nunca feitos, devorados por ratos e morcegos
onde servos de Ares recriam credos e guerras, por todas as eras
donde vejo quem eras e descubro incrédulo, nego, que erras
pois a esperar a quietude, que se feche viva e nunca se abra a porta
de fora, e se abra morta a de um agora, eterna solitude a dois
se for feita a pergunta malfadada, tinha que ser feita, tinha que ser
nessa mesa que oculta os canais das trevas com dengosa cor-de-rosa,
é me dada a mais cruel e certa certeza, sai de sua boca como mel
e ai de mim, tão precoce fim, rasga meus ouvidos como fel,
que, mesmo esquecidos, vez ou outra ressoam cacos desse dia
a repetir tuas heresias, proibidas alforrias, tuas minhas, eu sou,
sou eu, sim, certeza, mesmo, eu sou, cem porcento, ah, eu já sabia!
já sim, estava na tua cara, na tua face nua tua paixão cara, mas eu já sou
perdão, desculpa, não é minha culpa, oh, mas saibas que se eu não fosse, seria
sou, eu sou, sim, com certeza, é meu defeito, minha natureza, te digo aqui nessa mesa
não, não tem como, não tem modo nem jeito, ah, mas saibas que se eu não fosse, seria
é mentira brandir que não houve trovão a anunciar tal tempestade
é pecado fingir que não houve clarão de sanidade a tentar lumiar
entretanto não há força divina maior que tua absoluta potestade
e não há beldade deífica que possa impedir a fuga da realidade
nem que me faça poder poder ter a ti, ser amizade, ímpeto, ser e verdade
te perco nesta vida e te desejo na outra e, alcoolizado num mangue de sobriedade
me embebedo no vinho que escorre de minhas feridas como se fosse teu sangue
é que teu riso chegou em estrondoso gargalhar ácido e fugiu tão tímido e piedoso
teu tom ao proferir as mais doces atrocidades era o som dos condenados ao Hades
a arder no mais cálido fogo, poço ardente do meu prazer temente e sádico
no purgatório, ainda em um pior pulsante coração, ato declaratório em que te amaldiçoo,
te abençoo, e redijo a lancinante confissão de que até a morte seria menos falta de sorte
seria, se fosse, sofrimento de tênue tormento e, se comparada, ironia de menor porte
para a cadeira sem eira nem beira falta uma perna e, para mim, uma faca
para o móvel, faz a prótese de natura matéria do pó da terra, com galhos e cipó
prendendo-a como tua Eva, hera venenosa misericordiosa, atura e abandona-a
para mim, dispensas facas, afinal, preciso apenas guardar tua tesoura
cortarei meu eu com tal tesoura sem ponta, matança moura à tua imagem e semelhança
rasgar meu corpo estorvo, trucidar meus pulsos, impulsos, até arrancar tonta toda a pele
sem fé destruir toda matéria física de minha existência, revelar miséria mística que velo
eu sou tu: se não tu, tentativa de ser o que fui; quando não teu inimigo, teu amigo,
impotência frente tua onipresença; quando não teu pai, teu filho; quando teu ai, teu oi



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