Os Irmãos Karamázov, a última obra de Dostoiévski da vida para a história
No seu grandioso canto do cisne, o autor produziu a obra que sintetiza as ideias semeadas em toda a sua produção artística. Porém, diante de algo tão avassalador para as estruturas arcaicas do século XIX, o leitor contemporâneo ainda consegue tirar proveito de tal obra para seu desenvolvimento pessoal e crítico?

Fotografia por Luisa Camara Ferreira da Costa
Para se iniciar uma análise sóbria, deve-se mencionar que a leitura per si é desafiante, uma vez que é um livro longo, cuja prosa, muitas vezes, são monólogos sem divisão de parágrafo, com períodos longos. A depender da linguagem atribuída à personagem, essa estruturação torna a leitura cansativa, ou ainda de difícil compreensão, pois, nessas grandes exposições, há demonstração das grandes teses do autor que cada personagem irá representar no enredo.
Portanto, o leitor antes de embarcar nessa história deve estar atento: o livro vai demandar foco e resiliência já nas primeiras páginas, onde o narrador vai apresentar de forma frenética as principais personagens, com as suas personalidades e as suas peculiaridades psicológicas: Fiódor Pavlovitch Karamázov e os seus filhos Dmitri, Ivan e Alieksiêi - sendo esse apresentado como o futuro herói da continuação que o autor pretendia escrever após a conclusão desta obra. Contudo, Dostoiévski, infelizmente, não conseguiu dar sequência ao livro, pois morreu pouco depois de sua publicação (e, mais pesaroso ainda, é que, depois da finalização da leitura, surge fortemente o desejo pela continuação que nunca existiu).
Desse modo, com o leitor avisado, passa-se ao cerne da questão da resenha crítica: vale a pena se dedicar a tamanha obra? Escrevo com sentimentos fortes que, sim, vale. Que todos, mesmo aqueles com pouco tempo livre, dediquem parte do seu dia a dia para escapar da realidade enfadonha dos tempos atuais e da rotina cansativa para mergulhar nas agruras de uma Rússia inserida na materialidade histórica da abolição da servidão e da decadência da nobreza, a qual é, paradoxalmente, exposta por personagens que universalmente materializam os tormentos e questionamentos humanos a respeito dos conceitos de justiça e virtude.
Apesar de ambos os conceitos serem extensamente trabalhados com base na religião cristã ortodoxa, não se deixe enganar por esta abordagem, acreditando que se trataria de uma doutrinação por parte de Dostoiévski. Diferente disso, a discussão acerca da liberdade e da autonomia da vontade humana, dentro de um mundo governado por forças divinas, faz parte do imaginário social desde o começo dos tempos, e a sua análise na obra escolhe o cristianismo como pano de fundo simplesmente porque era uma questão cara ao homem russo da época, além de ser a bagagem cultural do próprio autor (BEZERRA, 2019).
Assim, o autor levanta diversos questionamentos acerca do funcionamento da justiça humana, manifestada por um Poder Judiciário imperial leniente, ao lado da revoltante indiferença que a justiça divina observa à perpetuação de tais injustiças na Terra. Esses extremos ganham relevo, principalmente, em relação às crianças, cujas vidas muitas vezes são ceifadas por ações indiretamente instigadas pela banalização da prática de crimes brutais contra as suas frágeis vidas. Sob essa perspectiva, perpassa, durante toda a obra, a fragilidade da infância, a qual é retratada em episódios tristes de falecimento infantil. Tal ênfase pode ser justificada na morte precoce do filho do autor, que precedeu a escrita da obra, e cujo nome será dado ao herói da narrativa.
Além disso, destaca-se como a inocência das crianças em relação às malícias do mundo adulto, - demonstrada na fraternidade e na honra de uma moral destituída de corrupção e de ganância -, é a base pela qual a virtude pode imperar nas ações humanas, mesmo quando ela se mostra meramente como uma lembrança, sendo que esta forma de manifestação é aquela que guiará a boa ação com o outro e consigo mesmo, ou seja, o atingimento da justiça plena. Por conseguinte, chega-se à conclusão de que o exercício de conexão com a infância é de suma importância para a construção de uma sociedade justa e mais igualitária. Essa postura também é invocada em relação à ordem socioeconômica da época, descrevendo a pobreza, os vícios que nela se perpetuam (principalmente, os males do alcoolismo) e a avidez por dinheiro perpetuada não só por aqueles que já detinham poder econômico, mas também por aqueles que ganham esse novo status e reproduzem o status quo (BEZERRA, 2019).
E é, nesse sentido, com o propósito de provar a sua tese, que o autor descreve o evento principal da narrativa: um assassinato, sendo o nome Karamázov a peça central de tudo isso, no qual se expõe tanto os vícios do sistema judiciário penal, quanto os vícios humanos que fatidicamente levaram à consagração da injustiça com consequências trágicas. Aliás, é digno de nota mencionar de antemão, para instigar a curiosidade do leitor, que o significado do sobrenome nasce a partir da interpretação conjunta das partículas “kara” e “maz” que correspondem em português, respectivamente, a “castigo” e “errar o alvo no tiro”, o que sugere que aqueles que levam o seu nome consigo sejam, talvez, as pessoas responsáveis pelos os seus próprios sofrimentos, mesmo que eles sejam indevidamente atribuídos (e, para descobrir mais, recomendo ao leitor começar a sua leitura sem demoras!).
Para os amantes de processo penal, o livro conta tanto com o processo de inquérito policial, com o depoimento do réu e das testemunhas, quanto com o julgamento final, havendo uma batalha interessantíssima travada entre a defesa e acusação do réu – juntamente com uma instigante busca pelo verdadeiro culpado pelo crime cometido. Essas passagens abrangem tanto o desmembramento de relações pessoais conturbadas das personagens, como também, verdadeiros entraves intelectuais a respeito da moral e da efemeridade da vida como uma possível condicionante para a existência da virtude. Há, nesse âmbito, uma perspectiva veemente anti-niilista por parte do autor, ao reafirmar diversas vezes a valorização da vida e como devemos tratar bem todos os seres vivos ao nosso redor para vivermos em paz com a nossa própria mortalidade.
Devido a essa opinião tão específica sobre o assunto, acometeu-me o questionamento: será que Nietzsche se inspirou na obra do autor? Ambos foram conterrâneos por um período de tempo em suas vidas, mas, ao fazer as minhas pesquisas, descobri que, sim, Dostoiévski foi uma inspiração para Nietzsche, afirmando explicitamente, em sua obra “O Crepúsculo dos Ídolos”, que o autor fora o seu “único psicólogo de sua vida” (uma leitura que ainda não fiz, mas, caso tenham interesse na resenha, vocês podem pedir nos comentários) (CABRAL, 2021).
Existem, ademais, na construção desse universo, personagens terríveis, que ora desprezamos, ora terrivelmente gostamos da sua vilania. As personagens Smierdiakóv, Lisa Khokhlakova, Catarina Ivánovna e até mesmo Ivan Karamázov exemplificam tal prazer pela crueldade, provando-se, aliás, esse ser a personagem mais enigmática e complexa de todo o enredo. A expectativa no entorno de sua presença é construída de forma genial, de modo que se mistura, simultaneamente, a uma exposição completa de seus pensamentos, enquanto ainda há um remanescente de uma aura de mistério que pende em cada uma das faces destrinchadas de sua personalidade e erudição, expressas também em seus gestos e ações em momentos de tensão (BEZERRA, 2019).
Se é possível descrever em poucas linhas o que se pode esperar exatamente da leitura deste livro, pode-se declarar que é uma história que vai exasperar a sua alma tanto pela curiosidade em relação a progressão do enredo, quanto pelas ideias controvertidas levantadas pelas discussões teológicas, morais e jurídicas entre as personagens, cuja construção pessoal torna-as tão verossímeis que a visão da sua existência em pleno século XXI ainda é, com contornos nítidos, palpável. Por ser um livro com um grau de complexidade elevado, arrisco dizer que a sua leitura é, além de um passatempo, um ótimo exercício intelectual para treinar a compreensão de grandes raciocínios lógicos, desenvolvidos de forma direta e sem destrinchamentos explicativos. Também pode ser uma forma de melhorar o ritmo de leitura, podendo o leitor, com o tempo, adquirir os meios de compreender mais facilmente textos de maior grau de complexidade gramatical e textual.
A temática da obra encontra-se no cerne não só do que o estudante de direito deve refletir quando pensa filosoficamente acerca do sistema jurídico no qual se encontra, mas, refere-se também a questões caras que todo cidadão de um Estado Democrático de Direito deve pensar, na medida em que, coletivamente, todos devem pensar no bem comum, o que implica necessariamente no pleno conhecimento acerca da profundidade que os conceitos de justiça, virtude e moral invocam. E, ironicamente, este não era o contexto político da escrita do autor, o que resultou em diversos cortes de censura da obra original que apenas pôde ser restaurada plenamente nos anos 70 (BEZERRA, 2019).
É, em suma, uma obra imperdível que causa fortes sentimentos e reflexões filosóficas no leitor do século XXI, transformando-o, no final da leitura, em uma pessoa mais humana e sensível ao bem da humanidade. Em um tempo em que a vida está cada vez mais dominada pelas telas dos celulares, pelo consumo em massa de informações processadas e pela automatização dos sentimentos humanos que, longe de serem produzidos pelo ser humano, foram produzidas por sofisticados programas de Inteligência Artificial, “Irmãos Karamazov” se faz uma obra fundamental e indispensável.
OBS: Para livros em línguas estrangeiras que não sejam inglês, espanhol ou francês, vale um último comentário acerca da edição do livro escolhido: a tradução da língua russa por muito tempo foi feita indiretamente a partir da sua tradução para o francês, portanto, deve-se atentar se a edição explicitamente descreve que foi diretamente traduzida do russo para o português. Como foi uma obra muito censurada, a edição da Editora 34 é a única no Brasil que publicou a versão integral restaurada, além do fato de não conter quaisquer erros de revisão ou gramaticais, o que torna a leitura mais leve e prazerosa. Assim, recomendo fortemente o uso desta versão para a leitura.
Referência Bibliográficas
BEZERRA, Paulo. Um Romance Síntese. In: DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. São Paulo: Editora 34, 2019.
CABRAL, Alexandre. Dostoiévski em Nietzsche: considerações críticogenealógicas. RUS (São Paulo), São Paulo, Brasil, v. 12, n. 18, 2021. DOI: 10.11606/issn.2317-4765.rus.2021.184281. Disponível em: https://revistas.usp.br/rus/article/view/184281. Acesso em: 5 ago. 2026.




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