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A soberania em jogo diante das eleições de 2026

Henrique Nunes de Araujo
13 de out.
8 min de leitura

As eleições de 2026, a direita transnacional e a tradição do alinhamento aos Estados Unidos


Fotografia por José Ricardo Kishi
Fotografia por José Ricardo Kishi

O primeiro turno de 4 de outubro deu à direita brasileira seu resultado legislativo mais expressivo desde a redemocratização. O PL elegeu a maior bancada partidária da Câmara desde 1988 e terá 28 cadeiras no Senado. Contrariando a pesquisa do Datafolha da véspera, que dava vantagem a Lula, Flávio Bolsonaro terminou à frente de um presidente em exercício.


Apesar disso, a disputa presidencial segue aberta, com a diferença entre os candidatos sendo inferior a dois pontos percentuais. O país volta às urnas em 25 de outubro. Tendo tal cenário em vista, compreender esse resultado do dia 4 exige examinar ao mesmo tempo os fatores domésticos e as pressões externas, polos que na história brasileira raramente atuaram de forma separada.


O resultado do primeiro turno


Imagem: Nexo Jornal
Imagem: Nexo Jornal

Com a apuração praticamente concluída, Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL) somou 47,05% dos votos válidos, contra 45,14% de Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), sendo o inverso do cenário de 2022, quando Lula liderou o primeiro turno com 48,43%. O filho do ex-presidente – e candidato da direita – concorre por procuração, pois o pai, Jair Bolsonaro, encontra-se inelegível desde 2023 e foi condenado pelo STF, em 2025, a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.


Outra perspectiva desse cenário ocorre no Legislativo, em que o avanço do campo ideológico da família Bolsonaro é inequívoco, pois o PL elegeu 121 deputados, superando o recorde de 105 do PFL em 1998, e 19 senadores. Diante disso, segundo o Poder360, o Senado começará 2027 com 49 senadores de direita, o suficiente quórum de três quintos para emendar a Constituição, mas abaixo dos 54 votos exigidos para destituir um ministro do Supremo – o que não necessariamente é uma barreira, considerando o apoio do “Centrão” à eleição de Flávio Bolsonaro.


Nos estados, o PL venceu no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e Tarcísio de Freitas foi reeleito em São Paulo. Porém, esse quadro cerca-se de nuances. Por exemplo, a federação liderada pelo PT manteve praticamente a bancada de 2022, com 82 deputados, e o partido reelegeu governadores na Bahia e no Ceará. Em contraste, o avanço da direita concentrou-se no Legislativo e na região Sul-Sudeste.


Um padrão histórico de ingerência


Sob uma perspectiva internacionalista das eleições atuais, há precedente histórico da presença dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. No início dos anos 1960, por exemplo, o complexo IPES/IBAD, estudado pelo teórico uruguaio René Dreifuss (1981), articulou empresários, militares e técnicos contra o governo João Goulart. Tal IBAD financiou candidatos nas eleições de 1962 com recursos de origem obscura e acabou investigado por uma CPI logo após.


Já em 1964, ano do início da ditadura empresarial-militar brasileira, documentos desclassificados reunidos pelo National Security Archive (2014) mostram o embaixador Lincoln Gordon pedindo armas para os conspiradores, a serem entregues por "submarino sem identificação". Concomitantemente a isso, a Operação Brother Sam deslocava uma força-tarefa naval rumo ao Brasil, que só não foi empregada porque o golpe venceu sem resistência significativa.


Tendo isso em vista, o historiador Carlos Fico, em 2008, afirmou que o golpe foi articulado sobretudo por brasileiros, com Washington como garantidor, e que o apoio prosseguiu depois, com reconhecimento imediato e financiamento ao regime. É importante ressaltar que a redemocratização não acabou com tal assimetria pois, em 2013, os documentos de Edward Snowden revelaram que a NSA espionava Dilma Rousseff e a Petrobras.


Alinhamento e pedido de sanções


"O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil." Essa frase, atribuída a Juracy Magalhães, embaixador do ditador Castelo Branco em Washington, tornou-se representativa do alinhamento automático da primeira fase da ditadura. Já o historiador Gerson Moura demonstrou que a dependência brasileira em relação aos Estados Unidos não eliminava as possibilidades de autonomia na política externa, mas exigia estratégia para que houvesse sua exploração e preservação, uma estratégia que setores da direita brasileira, em diferentes momentos da história do Brasil, optaram por abandonar.


O bolsonarismo tornou esse abandono bastante explícito ao se considerar eventos lastimáveis como a continência à bandeira norte-americana, o "I love you" a Trump, o antiglobalismo de Ernesto Araújo inspirado em Olavo de Carvalho, radicado na Virgínia e próximo de Steve Bannon (Teitelbaum, 2020). Porém, desde 2025, o fenômeno mudou de natureza, pois residindo nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro passou a pedir sanções contra o próprio país.


Como consequência, vieram a tarifa de 50% anunciada por Trump em julho de 2025, justificada pela suposta perseguição ao Jair Bolsonaro, embora os EUA tenham superávit comercial com o Brasil; a Lei Magnitsky aplicada ao ministro Alexandre de Moraes; e a revogação de vistos de funcionários públicos brasileiros. Logo após, em junho de 2026, o STF condenou Eduardo por coação no curso do processo contra o pai. Levando essas questões em consideração, “entreguismo” é, de forma evidente, uma expressão de forte carga política. E articular-se com aliados estrangeiros é parte legítima do jogo político, e a esquerda também possui suas redes internacionais; o limite é ultrapassado quando o alinhamento passa a consistir em subserviência, especialmente quando se chega ao ponto de recorrer a uma potência estrangeira para que puna a própria economia nacional como instrumento de pressão sobre uma decisão judicial. Portanto, é patente que não se trata mais de cooperação internacional, mas sim de colocar interesses políticos domésticos acima da própria autonomia do país, consistindo em uma conduta de gravidade excepcional e sem paralelo recente na democracia brasileira.


A direita transnacional


O bolsonarismo não é importação e muito menos é um fenômeno puramente doméstico, como demonstrado pela Camila Rocha (2021), que ressalta que, desde os anos 2000, institutos como o Millenium e o Mises Brasil, vários conectados à Atlas Network, formaram quadros e uma linguagem de "nova direita". Depois, vieram a CPAC Brasil, a Carta de Madri do partido espanhol Vox e as redes religiosas antigênero, conjunto que o historiador italiano Steven Forti denomina "extrema direita 2.0", com as plataformas digitais completando essa perspectiva ao converter desconfiança nas instituições em identidade política.


Nesse sentido, em 2026, essa rede de direita passou a contar com instrumentos do Estado norte-americano, uma vez que, em junho, o Representante Comercial dos EUA (USTR) classificou como "irrazoáveis" a regulação brasileira de plataformas, a política de etanol e até o Pix, usado em 2025 por 148 milhões de pessoas. E no mês seguinte entrou em vigor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.


Acerca disso, segundo levantamento do jornal Brasil de Fato, Flávio Bolsonaro esteve seis vezes nos EUA neste ano, inclusive para ser recebido por Trump no Salão Oval, em maio, ao passo que, em audiência do USTR, pediu que a nova tarifa fosse adiada, porque poderia beneficiar Lula na eleição. Além do mais, às vésperas do primeiro turno, Trump evitou declarar apoio, mas afirmou que observaria a eleição "de muito perto". Assim sendo, embora não haja, até aqui, provas de financiamento estrangeiro ilegal, tampouco se pode ignorar que, a Washington, foi levada uma disputa política essencialmente brasileira, com atores nacionais buscando no exterior apoio, pressão e instrumentos capazes de interferir no curso de decisões tomadas dentro do Brasil.


As fronteiras entre o externo e o interno


Por outro lado, seria cômodo, mas também falso e analiticamente inadequado, atribuir a Washington a responsabilidade pelo resultado do primeiro turno das eleições brasileiras de 2026, pois isso significaria ignorar as responsabilidades e escolhas dos próprios atores políticos brasileiros, tendo em vista que o voto à direita apresenta bases sociais e políticas bem definidas, muito marcado pelas regiões Sul e Sudeste, agronegócio, eleitorado evangélico e as faixas de renda média. Ademais, somam-se a avaliação dividida do governo atual, a centralidade da segurança pública e o antipetismo, sob uma roupagem de uma direita populista e reacionária. Dessa forma, é pertinente pontuar que nada disso foi exclusivamente fruto de ventos políticos externos, já que, por outro lado, o efeito da pressão externa, aliás, foi ambíguo, pois logo depois do tarifaço estadunidense de 2025, segundo a Quaest, a aprovação de Lula atingiu seu melhor patamar daquele ano, o que não bastou para fazer com que o governo vigente conseguisse manter resultados melhores no primeiro turno.


Considerando isso, a interferência externa por parte dos Estados Unidos teve menos efeito sobre a escolha dos eleitores do que sobre o ambiente em que a disputa ocorreu. Isso pode ser ilustrado ao passo em que se observa que, de um lado, tal perspectiva de influência deu à direita aliados poderosos e reforçou um discurso de que ela estaria sendo perseguida e, ao mesmo tempo, permitiu ao governo Lula apresentar a defesa da soberania nacional como uma de suas principais bandeiras, sem, porém, transformar esse discurso em resultados concretos mais percebidos pela população. Tal contraste se encontra na ideia de que o grupo que defendeu sanções contra o próprio país saiu das urnas com mais força, como mostraram as eleições atuais.


Perspectivas para o futuro e um tom de esperança


A história recente oferece mais motivos de confiança do que costumamos reconhecer, e talvez o maior dos exemplos esteja no contexto da ditadura: ela foi corroída por anos de luta e trabalho pacientes, a partir da participação de sindicatos, comunidades de base, imprensa alternativa, estudantes e outros setores da sociedade, até que ocorreram as Diretas Já e a promulgação da Constituição de 1988. E foi nesta Faculdade que Goffredo da Silva Telles Junior leu, em 1977, a Carta aos Brasileiros. Foi daqui que partiu, em 2022, a carta em defesa do Estado Democrático de Direito, subscrita por mais de um milhão de pessoas, durante o governo de Jair Bolsonaro.


Além do mais, em 8 de janeiro de 2023, a tentativa de golpe fracassou porque havia instituições funcionando e uma sociedade que não aderiu aos ideais dos golpistas. E em 2025, a pressão de uma superpotência recuou diante de firmeza e negociação diplomáticas, pois Trump retirou a sobretaxa sobre café, carne e frutas, e o Ministro Alexandre de Moraes foi excluído da lista da Magnitsky.


Não significa, no entanto, que não há de se ter luta ou trabalho. Cabe disputar o segundo turno sem pânico e sem soberba, enfrentando os temas da segurança e do custo de vida em vez de deixá-los à direita. Além disso, há de preparar-se para um Congresso hostil, em que a defesa do Judiciário, da Justiça Eleitoral e da imprensa será tarefa desafiadora e permanente. Igualmente importante, devemos dar conteúdo material à soberania a partir do Pix, da regulação de plataformas sociais e minerais críticos, que são ativos concretos. Ressalta-se também que uma soberania que não se traduz em emprego e renda não vence eleições, e que cabe retomar o trabalho de base, porque a nova direita dedicou duas décadas a institutos, cursos e influenciadores. Não há atalho.


Por fim, os cientistas políticos Levitsky e Ziblatt, em “Como as Democracias Morrem”, lembram que democracias chegam ao fim menos por golpes súbitos e com uso da força do que pela erosão lenta das normas e do Estado Democrático de Direito. Vale dizer que tais normas se reconstroem voto a voto, instituição a instituição, e mesmo que o resultado de 2026 seja um revés sério, não é definitivo. Não devemos nos esquecer que o Brasil já enfrentou momentos mais graves, e a resposta sempre dependeu de gente organizada, disciplinada e persistente.


Referências bibliográficas

CESARINO, Letícia. O mundo do avesso: verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu, 2022.

DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1981.

FICO, Carlos. O grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

FORTI, Steven. Extrema derecha 2.0: qué es y cómo combatirla. Madrid: Siglo XXI de España, 2021.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

LYNCH, Christian; CASSIMIRO, Paulo Henrique Paschoeto. O populismo reacionário: ascensão e legado do bolsonarismo. São Paulo: Contracorrente, 2022.

MOURA, Gerson. Autonomia na dependência: a política externa brasileira de 1935 a 1942. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

NATIONAL SECURITY ARCHIVE. Brazil marks 50th anniversary of military coup. Washington, DC: George Washington University, 2014. (Electronic Briefing Book, n. 465). Disponível em: https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB465/. Acesso em: 5 out. 2026.

NICOLAU, Jairo. O Brasil dobrou à direita: uma radiografia da eleição de Bolsonaro em 2018. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

ROCHA, Camila. Menos Marx, mais Mises: o liberalismo e a nova direita no Brasil. São Paulo: Todavia, 2021.

TEITELBAUM, Benjamin R. War for eternity: inside Bannon's far-right circle of global power brokers. New York: Dey Street Books, 2020.

Dados eleitorais e fatos de 2025–2026: Agência Senado/TSE, Agência Câmara, CNN Brasil, Poder360, Bloomberg Línea, Terra, STF, Quaest, Brasil de Fato, Telesíntese, Agência Brasil e Rondônia Dinâmica.

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