Estômago (2007): Em terra de fome, quem cozinha é rei?
Atualizado: 30 de set.

Fotografia por Ricardo Satoshi Yamassaki
Dirigido por Marcos Jorge, o filme conta a história de Raimundo Nonato, um migrante nordestino que, sem planejamento algum, vai para a cidade de São Paulo tentar fazer a vida na metrópole, trajetória típica dos avós de qualquer paulistano médio. Com fome, o homem pede algumas coxinhas num bar de esquina, come-as e acaba dormindo, provavelmente cansado de sua viagem interestadual. Quando o estabelecimento encerra sua atividade, Nonato, sendo o único cliente que ainda não se retirou, é questionado por Zulmiro, dono do boteco, sobre seu pagamento, ou melhor, sobre a ausência dele. O protagonista explica que não possui dinheiro algum para o pagá-lo e Zulmiro sugere que seu devedor lavasse seus pratos em troca das coxinhas que não lhe foram ressarcidas. Coagido, Raimundo aceita a proposta.
Em paralelo ao início da jornada de Nonato na capital paulista, já nos é exposto como ela termina – aliás, o filme começa pelo final. Ao se recusar a seguir a ortodoxa narrativa de começo, meio e fim, fica claro desde a primeira cena que nosso inocente e abnóxio protagonista, de alguma maneira, vai parar na prisão, e somente o motivo para isto é realmente revelado por último. Nesse sentido, a narrativa é construída através de flashes que alternam entre sua fase prisional e a sucessão de fatores que condenaram-no a ela.
Já era tarde da noite, Nonato propõe a ideia de ir embora e retornar para o bar no dia seguinte a fim de quitar sua dívida. Com cabo de vassoura em mãos, em tom passivo-agressivo, Zulmiro oferece seu quarto dos fundos para que seu onerado se sinta forçado a cumprir sua promessa ainda durante a madrugada. O dono do bar acrescenta, ainda, que somente lavar a louça não é o suficiente em troca de alguns salgados e da “hospedagem”, como ele mesmo se refere, e o manda lavar também o chão da cozinha. Sem possibilidade de escolha, o nordestino aceita.
O que era para ser apenas uma noite se torna rotina quando, na manhã seguinte, Zulmiro pergunta se Raimundo quer aprender a fazer pastel. Aos poucos, Raimundo Nonato vai se descobrindo na cozinha e pegando gosto pela culinária, chegando a superar o próprio patrão em questão de dias. Agora que ele havia se tornado um funcionário “efetivo”, questiona seu chefe a respeito de sua remuneração, o qual, além de responder com deboche, faz questão de humilhá-lo por ser um indigente de origem rural.
Nesse contexto, Seu Zulmiro é a representação perfeita da manutenção da mentalidade escravocrata por uma classe média contaminada pela síndrome do pequeno poder. Seu boteco, construído sob sua própria casa, não era bem movimentado devido à qualidade de seu serviço (suas coxinhas chegam a ser chamadas de “ruim para porra” por uma frequentadora assídua do local que será, em breve, apresentada), mas por estar localizado em região central e ser acessível para qualquer transeunte. Dono de um estabelecimento medíocre, ao se deparar com alguém em situação pior que a sua, ele não perde a oportunidade de ridicularizá-lo: por ser da roça, por ser migrante, por ser pobre, mas, principalmente, por estar dependendo dele.
Mesmo sabendo que são injustas, por estar em território desconhecido, Nonato aceita as condições análogas à escravidão. Ainda neste ambiente de trabalho, o salgadeiro conhece a profissional do sexo Íria, aquela mesma personagem que não medira palavras para criticar o baixo padrão das coxinhas antes preparadas por Zulmiro, mas que, agora, encontrava-se encantada pelos quitutes preparados pelo novo funcionário. Assim, o paladar é o pontapé para o relacionamento entre os dois: enquanto Raimundo abastece a mulher com suas refeições, ela alimenta-o com seu próprio corpo, de modo que Nonato passa a desenvolver sentimentos pela moça. Íria finge corresponder para que continue a desfrutar de seus dotes culinários, como revela a cena em que, mesmo durante relação sexual, Íria não resiste ao prato de macarrão levado para a cama.
Certa noite, quando o bar está lotado, Giovanni, um chefe de cozinha, encanta-se com a simples e saborosíssima comida preparada por Raimundo, chegando a convidá-lo para trabalhar em seu renomado restaurante italiano, o Boccaccio. Não coincidentemente, o termo significa, em italiano, “boca grande” e é usado de maneira pejorativa para referir-se a coisas grandes e grosseiras. Nessa sacada genial de Marcos Jorge, traz-se à tona, sutilmente, a questão do viralatismo: apesar do nome do restaurante possuir conotação negativa, o que é chic é a forma, e não o conteúdo. Pouco importa se a tradução é desagradável, afinal, o estrangeiro, por si só, basta.
Ter contato com a alta gastronomia italiana não faz com que Nonato abandonasse seu questionável relacionamento com Íria, muito pelo contrário: o homem decide noivar-se com ela e até chega a convocar Zulmiro para ser seu padrinho de casamento, o qual, apesar de zombá-lo por ter se apaixonado por uma meretriz, aceita o convite. A cerimônia aconteceria no próprio local de trabalho de Raimundo, numa segunda-feira, único dia que o restaurante fica fora de serviço, como uma generosidade de seu patrão, que já conhecera Íria desde muito antes dela sequer saber da existência de seu noivo.
Oficializado o noivado dos dois, as visitas da mulher ao emprego de seu namorado se tornam cada vez mais frequentes, sejam elas permitidas, com a ciência de Giovanni, sejam escondidas, ou sejam elas, ainda, sem a ciência do próprio noivo, quando seu chefe decide testar as mesmas técnicas que Raimundo utilizara para a conquistar, seduzindo-a com seus ingredientes caros e requintados.
Para a inconveniência dos amantes, em um de seus encontros, Nonato entra na cozinha sorrateiramente e, escondido, pega os dois em flagrante aos amassos. O cozinheiro começa a surtar, chorando inconformado com o que acabara de presenciar. Mesmo em crise, Raimundo não revela sua presença de imediato. Antes, ele vai até a adega de vinhos do restaurante e abre a única garrafa que o dono revelara ser especial para ele, pois ela fora um presente de seu pai e só seria aberta quando o chef completasse o sexagenário. O protagonista consome aquela bebida como se fosse o sangue de seu dono, ingerindo em cada gole um pouco da vida que ele estava prestes a retirar. Mesmo se ele não o fizesse agora, Nonato sabia que tampouco faria seu proprietário, que jamais alcançaria os sessenta anos. Traído pela mulher e pelo próprio chefe, Raimundo, agora bêbado, refaz o trajeto de seus infiéis com uma faca na mão. Mata-os ainda nus, sem se preocupar com suas dignidades pois a sua também lhe fora retirada. Do homem, apenas é apartada a vida, mas, da mulher, é também arrancado um pedaço de seu glúteo, fritado e degustado como a última refeição de um condenado ao corredor da morte.
A escolha da parte do corpo, tal como todos os outros detalhes da obra, não foi ao acaso. Em primeiro lugar, o longa-metragem faz diversas alusões às nádegas femininas em contextos culinários, como quando Zulmiro as compara à consistência adequada de uma massa de pastel, mas o destaque é para a cena em que Giovanni e Raimundo estão num açougue, e o primeiro fala que o filé mignon, corte nobre da carne bovina, é o “correspondente à bunda da mulher”. Desse modo, ao escolher fatiar esse músculo, Nonato está afirmando sua superioridade frente à companheira assassinada. Ela é a caça e ele, o caçador, que exalta sua presa frente ao outro predador derrotado.
Exposto o crime que condenou Raimundo Nonato à prisão, agora entendemos o porquê dele se apresentar como “Raimundo Canivete” no começo da obra, ainda que ninguém tenha o levado a sério. Constantemente humilhado pelos colegas, ele só começa a ganhar respeito quando, cansado dos alimentos impróprios para consumo fornecidos pelo restaurante carcerário, voluntaria-se para preparar refeições para os colegas utilizando os poucos insumos disponíveis na cadeia. Os outros prisioneiros ficam encantados com os milagres que o cozinheiro consegue operar valendo-se apenas daqueles escassos recursos e Nonato prontamente ascende na hierarquia penitenciária. Ele, que antes dormia ao lado de um vaso sanitário, passa a ocupar uma das camas do único treliche da cela, a mais baixa delas, como símbolo de gratidão por parte de seus companheiros por proporcionar-lhes dignidade alimentar.
Bujiú, o prisioneiro que atua como comandante de todos os outros, chega a pedir para Raimundo fazer uma lista com quaisquer ingredientes que ele quisesse, pois ele encomendaria-os ao policial que, mediante pagamento, realizava contrabando de fora para
dentro da cela. Um desses itens é o alecrim, tão utilizado pelo gastrônomo que acaba se tornando sua alcunha. Pelo mesmo motivo, Alecrim é promovido novamente, o que no corporativismo prisional significava que, agora, ele dormiria na cama do meio, abaixo apenas de Bujiú.
A tricama do centro de detenção funciona como uma analogia para as três fases da vida de Nonato em São Paulo. A primeira, de baixo para cima, representa o trabalho, ou melhor, a servidão por dívida do bar à qual ele se submetera por não possuir escolha; é também a mais próxima do nível dos pés, simbolizando o quanto ele era pisado. Já a segunda, intermediária, remete ao seu emprego formal no Boccaccio, de modo que, ainda que tenha ganhado certa autonomia sobre suas finanças, sua moral é abalada pela dupla traição da qual é vítima. Por último, a terceira cama equivale ao estado de total domínio da sua vida e da todos ao seu redor. Assim, a fim de alcançá-la, Raimundo envenena o feijão de Bujiú, sabendo que aquele era seu prato favorito. Sua causa da morte é dada como indigestão, sem que sejam levantadas suspeitas de homicídio.
Todas as personagens e suas relações interpessoais em Estômago são animalescas, agudamente naturalistas. Aluísio Azevedo jamais poderia prever que, mais de um século depois, um filme curitibano teria tantas semelhanças à sua obra prima. O relacionamento entre Nonato e Íria, por exemplo, é movido por dois instintos biológicos – o sexo e a fome – correspondentes ainda, respectivamente, aos pecados capitais da luxúria e da gula. O determinismo, característico do movimento literário do século XIX, demonstra-se presente à medida que Raimundo é moldado pelo seu meio: antes um sujeito ingênuo e submisso, a exploração, violência e as condições subumanas às quais ele é submetido transformam-no em um indivíduo cruel, cínico e prepotente.
Trata-se da metamorfose de Raimundo Nonato, que possui nome de santo, em Alecrim, planta que pode ser tempero (Salvia rosmarinus), ou veneno (Holocalyx balansae). Como na Bíblia Sagrada, ele é Lúcifer, anjo que se transforma no demônio Satanás, mas também é Eva, pois é corrompido pela boca.
Referências bibliográficas
GONÇALVES, Ronan. “Estômago”, o filme: um retrato da vida cotidiana. Passa Palavra, 29 jan. 2012. Disponível em: https://passapalavra.info/2012/01/51765/. Acesso em: 11 ago. 2026.
KUCZYNSKI, Uliana. “Estômago”, o filme: uma análise projetando a comida enquanto prato principal para o cinema. Revista Vernáculo, Curitiba, n. 21-22, p. 253-258, 2008.




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