Jornalista também é autor

“Sra. Krementz sugeriu o apêndice.”
“Sra. Krementz escreveu?”
“Fez o polimento de alguns trechos.”
“Por que ela participou? Ela deveria manter neutralidade jornalística.”
“Impossível, isso não existe.” “Neutralidade jornalística é um conceito ultrapassado.”

Como toda cidade viva, Ennui-sur-Blasé alimenta uma fauna de vermes e carniceiros, com ratos colonizando as linhas de metrô subterrâneas, meninos delinquentes do coral, embriagados pelo Sangue de Cristo, que perseguem pensionistas desavisados e espalham o caos, e jovens estudantes famintos, irrequietos e imprudentes. É nesse cenário que a filial francesa da revista “A Crônica Francesa”, uma revista americana inspirada nas publicações do The New Yorker, encontra-se. Ela é comandada pelo editor-chefe Arthur Howitzer Jr. e, quando ele morre, deixa uma última edição a ser publicada.
A revista é dividida em diferentes seções: a seção “cor local”, com o repórter ciclista fazendo um retrato da cidade em 300 palavras; a seção “artes e artistas”, com a Obra-Prima Concreta, um retrato de uma arte e de um artista; a seção de política e poesia, com Revisões de um Manifesto; seção de sabores e cheiros, com o perfil de um grande cozinheiro; e, por último, a seção de declínios e mortes.
Entre as diversas seções, Wes Anderson utiliza as ilustrações, as cores, as narrações e as diferentes formas de encenação para fazer com que o filme se pareça menos com uma obra cinematográfica e mais com a experiência de ler uma revista. Além disso, Wes transforma todos os jornalistas nos personagens-chave da narrativa. Eles não aparecem como pessoas que apenas recolhem as informações e entregam ao leitor, eles aparecem como figuras essenciais, que depositam suas próprias opiniões e histórias naquilo que escrevem. Por trás de cada uma dessas narrativas há um autor, um jornalista, que tem uma maneira única de enxergar o mundo.
Lucinda Krementz possui a relação mais complicada entre jornalismo e realidade. Em sua seção, apresenta uma revolta estudantil em que os alunos tomam as ruas para contestar algumas das regras conservadoras de sua universidade, além de questionar a ordem social vigente. No centro da manifestação está o estudante Zeffirelli, que escreve os manifestos e participa dos debates. Para acompanhar a revolta, Lucinda se aproxima dos jovens, principalmente de Zeffirelli, deixando de apenas observar e anotar os acontecimentos e começando a conviver com o garoto. A jornalista, então, não consegue mais se separar da narrativa que está descrevendo desde que passou a conhecer seus personagens de uma maneira muito íntima. Existe, então, uma grande diferença entre viver uma revolta, participar de uma e contar sobre uma. E talvez seja justamente essa a graça da personagem: Lucinda vai até os estudantes para escrever sobre eles e acaba descobrindo que, para escrever sobre uma história, às vezes é impossível permanecer completamente fora dela.
Entretanto, Krementz não interfere apenas em como a narrativa será contada, mas exerce influência também na própria revolução, já que ajuda a escrever o manifesto que os jovens estão utilizando, ou seja, a jornalista não está mais apenas registrando as palavras dos jovens, mas ajudando a construí-las.
Lucinda, porém, não é a única jornalista que escolhe e interfere na maneira de contar a história. Herbsaint Sazerac, quando descreve a cidade em que a revista se localiza, escolhe muito bem como quer que ela seja vista. Ao ouvir a descrição que o jornalista faz da cidade, Arthur Howitzer Jr. questiona se aquelas informações não seriam “cretinas demais para pessoas decentes” e sugere que Sazerac poderia incluir lugares mais agradáveis, como uma floricultura, um museu de arte ou algum ponto particularmente bonito da cidade. A resposta é simples: ele se recusa. Não gosta de flores. Sazerac poderia apresentar uma Ennui-sur-Blasé mais elegante, turística e agradável, mas escolhe deliberadamente outra cidade. Ele não está preocupado em mostrar aquilo que seria mais bonito para o leitor, quer mostrar aquilo que, para ele, é interessante. Contar não é necessariamente inventar, mas sempre é escolher.
Se em A Crônica Francesa cada jornalista tem a liberdade de transformar as histórias de acordo com suas próprias inclinações, essa questão ganha outra dimensão quando pensamos no Brasil, principalmente em um período eleitoral, porque uma eleição não chega ao público como um único acontecimento; ela é narrada e contada o tempo todo.

Um acontecimento, apresentado em duas notícias diferentes, pode ser o mesmo, mas a forma como ele é abordado não. Um exemplo apareceu na cobertura sobre a participação do presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, no debate na Globo. A Folha de S. Paulo publicou a manchete: “Lula busca evitar desgaste e deve faltar ao debate da Globo”. A escolha de “busca evitar desgaste” não descreve apenas a possibilidade de ausência, mas apresenta uma interpretação sobre o motivo dessa decisão. Em outro veículo, o mesmo contexto foi apresentado de uma maneira bastante diferente. O UOL optou por perguntar: “Quem a Globo era obrigada a convidar para o debate presidencial?”. Em vez de começar pela possível decisão de Lula ou por sua motivação, a matéria começa pelas regras que determinavam quais candidatos deveriam ser convidados.
Uma manchete não consegue carregar uma reportagem inteira e, por isso, precisa escolher algumas palavras para representar aquilo que vem depois. Essa escolha não inventa necessariamente uma história, mas determina por onde começamos a enxergá-la.
No final das contas, A Crônica Francesa mostra que o jornalismo nunca será neutro, já que mesmo ao registrar o que aconteceu, a escolha da linguagem carrega significado. Cada jornalista decide para onde olhar, quem ouvir e sobre o que contar. Durante as eleições, a mesma coisa acontece: a escolha das manchetes não necessariamente distorce os fatos, mas pode determinar por onde o leitor começa a enxergá-los. Afinal, entre o acontecimento e quem o lê, existe sempre alguém que decidiu como contá-lo. Nenhuma história chega ao leitor sem antes passar pelo olhar de quem a conta.
Referências bibliográficas
UOL. Quem vai ao debate da Globo? Qual foi o critério para escolher candidatos? UOL Notícias, São Paulo, 30 set. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/30/quem-vai-ao-debate-da-globo-qual-foi-o-criterio-para-escolher-candidatos.ghtm. Acesso em: 1 out. 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Lula busca evitar desgaste e deve faltar a debate da Globo, adiando embate com Flávio Bolsonaro. Folha de S.Paulo, São Paulo, 28 set. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/lula-busca-evitar-desgaste-e-deve-faltar-a-debate-da-globo-adiando-embate-com-flavio-bolsonaro.shtml. Acesso em: 1 out. 2026.
THE SUFFOLK JOURNAL. Wes Anderson’s The French Dispatch is a love letter to journalism. The Suffolk Journal, [s. l.], [s. d.]. Disponível em: https://thesuffolkjournal.com/35540/ac/film/wes-andersons-the-french-dispatch-is-a-love-letter-to-journalism/. Acesso em: 1 out. 2026.




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