Não verás nenhum lugar como este

O barulho metálico ritmado da construção contava o tempo dos passos rápidos. O céu cinza me lembrava da história de óculos redondos. A história de que Deus segura a chuva quando os ateus dão as mãos na peruada. Observava a rua cinza e o homem envolto nas cobertas, do lado da porta.
Peço para que Ele me guie, mas o que me guia poderia não ser. Tem dias que o mim me acompanha enquanto ando, flutuando ao meu lado com pequenas canções agudas. Canções que tocam nos miolos do meu cérebro para lavar aquilo que se veste de útil, na sinfonia cafona do saber. Porque o mim só canta quando nada sei. E olha para o eu de fora, enquanto ela caminha apressada, em meio a corpos vivos envoltos no chão. Os cabelos longos acompanhando os passos, o coração batendo rápido. A gota singela caindo da nuca e sumindo no ar.
Descia a rua lotada de pessoas. Olhava seus corpos retos, redondos, mancos e moles. Eram como bonecos tristes enfileirados no ponto de ônibus, com o olhar que não se encontra. Pois a casa de um olho é sempre um outro olho que encara de frente. Se eu olhasse de frente, cada vez mais perto, poderia perceber o vazio neutro que existe entre as moléculas vibrantes? Poderia observar, de frente, a matéria do ressentimento que acompanha o sequestro do povo? Mas hoje não se fala mais em povo. Hoje, só se olha para baixo.
Por si, em si, somos desmembrados do povo. Meu corpo, que desce tenso, encosta em um outro que sobe rápido. “Desculpa”, eu me ouço falar. E num assombro percebo a minha voz. Percebo que existo e que passou por mim um outro, preso nos limites do seu corpo, que impede a integração primária de nós. Por muito tempo, vi o outro como aquele que age como se houvesse dor. Mas é na existência do outro onde há a dor. É preciso compreender a dor, pois não se toca, não se fala, não se entende o sofrimento místico do povo. Que carrega em bolsos vazios o destino.
Vários moços de laranja, como ele, estavam trabalhando em mais uma obra do centro. Mas ele me chamava, enquanto os outros fingiam não o escutar.
Como se estivesse presa em uma caixa, sua voz chegava até mim tal qual um burburinho. Chegavam em meus ouvidos vibrações dançantes, mas nenhuma palavra se formava. Só entendi quando ele chegou mais perto. Quando meus olhos encontraram os seus olhos esbugalhados. Os olhos negros e saltados de um louco.
O sinal estava verde e os carros passavam velozes. Não importava. Enfiei-me na rua e a buzina me acordou de mim. Escutei a voz masculina saindo do carro. “Deixa a menina em paz!”.
Pude, então, ouvir o que dizia o homem.
“Se essa rua, se essa rua, fosse minha” “Você conhece essa, menina?” “Conhece essa?”. Sim, eu conhecia a música. Lembrava da infância. Da voz da minha mãe cantando para mim enquanto pegava no sono. O sinal fechou.
Atravessei a rua correndo e, quando alcancei a calçada, olhei, uma última vez, para o homem de longe. Todos eles de laranja me olhavam estáticos, sem vida. Seria aquele olhar realmente parte do que sou? O medo do descontrole que tanto nos atribuem. O descontrole roubado de nós. E se eu lhe contasse, que sinto, no fundo da minha inconsciência, ampliar-se a loucura? E se a loucura fosse apenas um lugar onde os medos e os desejos se confundem? Onde tudo que for feito resultará em arrependimento e desgraça.
O barulho do vento agudo toca no metal e chora por nós. E lamenta o sofrimento. O barulho agudo do tempo que me envolve e me arrepia e me leva para os olhos esbugalhados. O que sou além daquilo que desprezo? O que desejo além da música aguda que me acorda de súbito na madrugada? Ela me acorda e me arrasta, junto a três freiras, para assistir mais uma vez. Eu sei o que acontece quando nada existe. Acontece a música do fim que me guiou pelo centro de São Paulo, onde passaram padres e peruadas. Onde eu vi, pela primeira vez, a bailarina. No palco de Francisca.
Suas pernas, duras como plástico, não podiam andar. Era carregada pelos homens até o palco, enquanto mulheres com os olhos pintados encaravam e sussurravam por baixo dos dedos delicados. A bailarina, de costas, mostrava a todos sua aberração. A imensa chave de cordas, dourada, fincada em sua pele, envolta por uma cicatriz profunda e grossa, que pulsava.
Os pequenos homens giraram a chave de cordas com força, dando início ao espetáculo. Girava como o movimento dos astros. E sucumbia, a cada passo longo, à curta dor da inexistência. Simulando o dia em que a terra será engolida pelo giro artístico do sol. Mas não chore. Não.
Sexta-feira é peruada.
A multidão de pessoas, colorindo o que é cinza. E Deus protegerá da chuva, se dermos as mãos. Mesmo que não escute a música estridente, perdida em algum lugar de você. Olhe para cima. Veja as pequenas casas coloridas que sobrevivem no alto de São Paulo. Pois juntos somos uma coisa só. Por um dia, a rua é toda nossa. Por um dia, não haverá sofrimento. E não verás nenhum lugar como este.




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