O dia depois

Hoje não foi fácil levantar da cama. mas pela primeira vez em muito tempo, foi pelo excesso de alegria da noite passada.
Fui para a cama sabendo que o despertador das 6h não funcionaria. O hábito de deitar cedo no domingo para me preparar para a semana foi pelos ares quando cheguei em casa por volta das 2h da manhã. Um uber caríssimo que percorreu um caminho de não muito mais do que 10km. A roupa úmida da garoa fina que tentou estragar a festa e aquela sensação de pele gelada por baixo da roupa que só passa quando a gente bebe algo quente. Nunca foi tão bom passar perrengue para voltar para casa.
Passei o domingo feito siri na lata, ansiosa desde os primeiros momentos do dia. Fui votar debaixo de chuva, vestindo roupas relativamente neutras e uma carranca para encarar de volta a maioria de quem passava por mim no bairro conservador. De vez em quando, cruzava caminho com alguém que tinha um adesivo, camiseta ou boné que exibia com orgulho o voto igual ao meu. Ouvi músicas que remeteram à luta democrática e percebi que elas mais marretavam meu coração do que aliviavam a taquicardia. Minha respiração nunca parecia profunda o suficiente.


No dia anterior, juntei forças e fui para a Paulista para o último ato de campanha. Cheguei atrasada para a concentração do bloco que queria acompanhar, e tarde demais para conseguir chegar até onde os amigos que chegaram mais cedo estavam. Peguei o metrô com gente adesivada e fomos todos recebidos com aplausos e gritos de alegria quando entramos no vagão. Um homem de camiseta vermelha e colete de couro gritava de tempos em tempos coisas como “viva o fim da escala 6x1!!”, “viva a democracia” ou “vamo galera, vamo virar”, e recebia em resposta os gritos de quem também estava indo para lá. Com cada estação que passava, aumentava meu entusiasmo e o volume da minha voz quando eu me juntava a eles.
Com planos de descer para o centro depois, escolhi desembarcar na Consolação. Fiz a baldeação na linha verde, ao invés de ir pela linha amarela, e encontrei a plataforma do Paraíso cheia de gente que fazia o “olê olê olê olá”. Quem subia as escadas do outro lado da estação às vezes gritava ou fazia um gesto de apoio, e o canto se avolumava com aplausos e mais gritos. Uma mulher loira de regata verde e boné estrelado viu que eu não estava à caráter e tirou um adesivo do próprio peito para colar no meu. “Não pode ficar de fora menina!!”. Ela cutucou um moço que estava por perto e pediu mais alguns, que me ajudou a colar na minha camiseta preta. Quando já passava o terceiro metrô que não conseguimos entrar, reparei na família que esperava atrás de mim: a filha mais nova, uma adolescente de uns 16 anos, chorava de emoção com a movimentação toda e abraçava a mãe dizendo que não sabia nem explicar. Fiquei com os pelos do braço em pé e senti meus olhos marejarem também.
Um desavisado disse que se soubesse da manifestação não teria entrado no metrô com a bicicleta. Nós nos amontoamos em volta dele e nos ajudamos a pular o banco para chegar na porta quando chegava o momento de descer do trem. Uma parte na Brigadeiro, outra, maior, no Trianon. Quando chegou a Consolação, o metrô já estava quase vazio, e eu pensei que tinha feito a melhor escolha para me poupar da muvuca e da confusão. Do jeito que andam as coisas, não sabia se podia confiar em mim mesma para enfrentar a multidão, e saí de casa preparada para uma possível crise, sem querer perder a chance de participar da história. Não adiantou nada. A plataforma estava abarrotada de gente que batia palmas e entoava os gritos de guerra dessa eleição. Mas, no meio de tanta energia e tanta gente sorridente, esqueci o medo que tinha quando decidi sair.

Foram 30 minutos para conseguir sair da estação. Todas as escadas estavam paradas e tentamos fazer o possível para conciliar quem subia e quem descia. Quem ia embora mostrava cartazes e bandeiras e era recebido com aplausos. Quem chegava bradava alguma coisa que agitava mais ainda o formigueiro que a gente estava. A esse ponto eu já sentia o suor escorrer e a respiração encurtar. Dando passos curtos como se estivesse de pés amarrados juntos, a ansiedade ganhou espaço e o entusiasmo começou a minguar.
Saindo da estação, me esgueirei até chegar na Haddock Lobo e observei de longe a imensidão de roupas vermelhas, bandeiras e cartazes. Senti que nunca mais ia conseguir expirar, a cabeça ficando leve e visão começando a embaçar. Não tinha a menor condição de continuar por lá, então resolvi me contentar com a presença de minutos que já fazia o esforço contar. Senti de novo a pequenice de não conseguir me manifestar, mas sabia que não tinha mais como me forçar.

De volta ao domingo, a hora parecia nunca passar. Votei cedo e à tarde levei meus pais até o colégio. Recebemos à tarde em casa os votos que não conseguimos virar. passei a tarde meio carrancuda, sem conseguir e nem querer muito me esforçar. Um olho na conversa e outro na tela do celular, me desesperei com as notícias do transporte público e fiquei com medo da confusão que tudo aquilo poderia causar. Mais tarde, na apuração da revista piauí, o Celso Rocha de Barros falou algo sobre a nossa doce ilusão de acreditar que a preocupação maior seria só o resultado, esquecendo da possibilidade de sabotagens e golpes. Ainda com a visita em casa, enfiei um fone no ouvido e fiquei ouvindo os comentaristas que também não sabiam bem o que pensar.
Quando eles foram embora, me despedi e deitei com o meu cachorro no sofá. De tempos em tempos, ele tremia com algum rojão ou comoção que eu não sabia o que significava. A tela mostrou exatos 50 a 50 mais de uma vez, e eu via ansiosa o percentual de urnas apuradas aumentar. Minha mãe sentou comigo e ouviu atenta cada comentário, um evento também de proporções inéditas, já que política nunca tinha sido um tema que ela fazia muito questão de acompanhar. Televisão ligada e celular na mão, eu comentava com amigos e acompanhava grupos onde todo mundo trocava mensagens de apoio e apreensão.

Quando as urnas apuradas passavam de 55%, não consegui mais ficar parada e tive que levantar. Tinha desistido de sair de casa depois de ver imagens de alagamentos e chuvas fortes, além da concentração da polícia militar na Avenida Paulista, onde a gente ainda não sabia se ia ter festa ou confronto, mas percebi que era um evento grande demais para passar em casa, e que queria ter a lembrança de ter encontrado meus amigos para comemorar. Troquei de roupa correndo e pedi um uber até onde eles estavam. Saí de casa quando a projeção da Folha confirmava a virada e tive que acalmar meus pais umas 3x quando eles me pediram cuidado na rua, com medo de quem talvez não fosse aceitar o resultado. A apuração terminou comigo dentro do uber e, enquanto o carro subia a Abraão Ribeiro, ouvi todo mundo começar a buzinar. Tentei segurar o sorriso e compartilhei minha localização com os amigos quando o motorista resmungou e disse “De novo esse cara….”.
Desci do carro direto no fluxo de gente cantando e comemorando. Desejei ao motorista um bom trabalho e uma boa noite e fui surpreendida quando ele disse “Toma cuidado aí na multidão hein amiga, se cuida”. Fui recebida pelos amigos que me esperavam com abraços e sorrisos aliviados. Fizemos um pit stop e um último xixi antes de sairmos juntos em direção à festa.

A mesma altura da avenida que me causou o princípio de pânico na véspera agora me fez respirar aliviada. Parecia que alguém tinha tirado com a mão aquela nuvem de ansiedade e, agora acompanhada, eu sentia o peito inflar enquanto via os rostos de tanta gente que sabia o tamanho do significado daquilo que, coletivamente, fizeram acontecer. A imagem que eu via parecia até mais nítida e as luzes brancas da avenida viraram iluminação cênica que acompanhava a festa que se desenrolava. Fomos juntos até o ponto onde a aglomeração se adensava e ficamos juntos por lá. Gritamos, cantamos e comemoramos de todas as formas e encontramos outros amigos que também estavam lá para comemorar. Vi rostos familiares passando pela multidão e muitas fotos repetidas nos stories de todos os conhecidos virtuais.

Quando me dei conta, passava de meia noite e o metrô tinha acabado de fechar. Ao contrário dos amigos que tinham deixado o carro perto da casa onde nos encontramos, eu nem sabia como ia voltar para casa. Já começava a garoar e eu também percebi que o dia seguinte era dia de trabalhar. Me despedi de quem estava por perto e prometi avisar quando chegasse em casa. Fui andando para longe da muvuca em direção à minha casa esperando que em algum momento ficasse viável pedir um uber. Desci a Augusta vendo a celebração de quem passava e conversei por um tempo com um catador que insistiu em me acompanhar. A garoa apertou e o preço da tarifa dinâmica não se mexeu. procurei um táxi comum para negociar, mas todos que passavam já estavam cheios de passageiros que enfiavam a cabeça para fora do vidro para gritar e comemorar.
Parei no toldo da portaria do prédio em frente ao Parque Augusta e percebi que não ia ter jeito, ia ter que pagar. Meu ônibus de sempre até aparecia no aplicativo, mas não sabia que desvio ele ia fazer por não conseguir cruzar a Paulista. Ele ainda estava na Faria Lima, e eu já tremia de frio e não queria mais esperar. Foram 20 minutos entre pedir o carro e finalmente conseguir embarcar. Fiquei mais tranquila quando vi o nome da motorista mulher, e mais tranquila ainda quando ela começou a buzinar em aceno aos passageiros felizes dos carros que passavam. Conversamos com leveza até ela me deixar em casa.
Confesso que deitei sem tomar banho, só tirei a calça e troquei a camiseta fumaçada pelo pijama velho que sempre gosto de usar. Lavei o rosto e escovei os dentes, e me enfiei debaixo das cobertas. Desliguei o despertador das 6h e me contentei com o das 8h, e quando abri os olhos hoje, pelo menos essa ansiedade não era mais algo a me preocupar. Não negligencio os outros resultados e sei que os próximos anos não vão ser fáceis. O cenário continua tenebroso e sei que o fôlego coletivo tende a baixar. Mas acho que, no dia depois da vitória, a gente ainda pode comemorar.





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