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O dia depois

Cecilia Inamura de Moraes
há 5 dias
7 min de leitura
Arte por Juliana Brito
Arte por Juliana Brito

Hoje não foi fácil levantar da cama. mas pela primeira vez em muito tempo, foi pelo excesso de alegria da noite passada.


Fui para a cama sabendo que o despertador das 6h não funcionaria. O hábito de deitar cedo no domingo para me preparar para a semana foi pelos ares quando cheguei em casa por volta das 2h da manhã. Um uber caríssimo que percorreu um caminho de não muito mais do que 10km. A roupa úmida da garoa fina que tentou estragar a festa e aquela sensação de pele gelada por baixo da roupa que só passa quando a gente bebe algo quente. Nunca foi tão bom passar perrengue para voltar para casa.


Passei o domingo feito siri na lata, ansiosa desde os primeiros momentos do dia. Fui votar debaixo de chuva, vestindo roupas relativamente neutras e uma carranca para encarar de volta a maioria de quem passava por mim no bairro conservador. De vez em quando, cruzava caminho com alguém que tinha um adesivo, camiseta ou boné que exibia com orgulho o voto igual ao meu. Ouvi músicas que remeteram à luta democrática e percebi que elas mais marretavam meu coração do que aliviavam a taquicardia. Minha respiração nunca parecia profunda o suficiente.


Fotografia por José Ricardo Kishi
Fotografia por José Ricardo Kishi

Fotografia por Beatriz Lira
Fotografia por Beatriz Lira

No dia anterior, juntei forças e fui para a Paulista para o último ato de campanha. Cheguei atrasada para a concentração do bloco que queria acompanhar, e tarde demais para conseguir chegar até onde os amigos que chegaram mais cedo estavam. Peguei o metrô com gente adesivada e fomos todos recebidos com aplausos e gritos de alegria quando entramos no vagão. Um homem de camiseta vermelha e colete de couro gritava de tempos em tempos coisas como “viva o fim da escala 6x1!!”, “viva a democracia” ou “vamo galera, vamo virar”, e recebia em resposta os gritos de quem também estava indo para lá. Com cada estação que passava, aumentava meu entusiasmo e o volume da minha voz quando eu me juntava a eles.


Com planos de descer para o centro depois, escolhi desembarcar na Consolação. Fiz a baldeação na linha verde, ao invés de ir pela linha amarela, e encontrei a plataforma do Paraíso cheia de gente que fazia o “olê olê olê olá”. Quem subia as escadas do outro lado da estação às vezes gritava ou fazia um gesto de apoio, e o canto se avolumava com aplausos e mais gritos. Uma mulher loira de regata verde e boné estrelado viu que eu não estava à caráter e tirou um adesivo do próprio peito para colar no meu. “Não pode ficar de fora menina!!”. Ela cutucou um moço que estava por perto e pediu mais alguns, que me ajudou a colar na minha camiseta preta. Quando já passava o terceiro metrô que não conseguimos entrar, reparei na família que esperava atrás de mim: a filha mais nova, uma adolescente de uns 16 anos, chorava de emoção com a movimentação toda e abraçava a mãe dizendo que não sabia nem explicar. Fiquei com os pelos do braço em pé e senti meus olhos marejarem também.


Um desavisado disse que se soubesse da manifestação não teria entrado no metrô com a bicicleta. Nós nos amontoamos em volta dele e nos ajudamos a pular o banco para chegar na porta quando chegava o momento de descer do trem. Uma parte na Brigadeiro, outra, maior, no Trianon. Quando chegou a Consolação, o metrô já estava quase vazio, e eu pensei que tinha feito a melhor escolha para me poupar da muvuca e da confusão. Do jeito que andam as coisas, não sabia se podia confiar em mim mesma para enfrentar a multidão, e saí de casa preparada para uma possível crise, sem querer perder a chance de participar da história. Não adiantou nada. A plataforma estava abarrotada de gente que batia palmas e entoava os gritos de guerra dessa eleição. Mas, no meio de tanta energia e tanta gente sorridente, esqueci o medo que tinha quando decidi sair.


Fotografia por José Ricardo Kishi
Fotografia por José Ricardo Kishi

Foram 30 minutos para conseguir sair da estação. Todas as escadas estavam paradas e tentamos fazer o possível para conciliar quem subia e quem descia. Quem ia embora mostrava cartazes e bandeiras e era recebido com aplausos. Quem chegava bradava alguma coisa que agitava mais ainda o formigueiro que a gente estava. A esse ponto eu já sentia o suor escorrer e a respiração encurtar. Dando passos curtos como se estivesse de pés amarrados juntos, a ansiedade ganhou espaço e o entusiasmo começou a minguar.


Saindo da estação, me esgueirei até chegar na Haddock Lobo e observei de longe a imensidão de roupas vermelhas, bandeiras e cartazes. Senti que nunca mais ia conseguir expirar, a cabeça ficando leve e visão começando a embaçar. Não tinha a menor condição de continuar por lá, então resolvi me contentar com a presença de minutos que já fazia o esforço contar. Senti de novo a pequenice de não conseguir me manifestar, mas sabia que não tinha mais como me forçar.


Fotografia por Beatriz Lira
Fotografia por Beatriz Lira

De volta ao domingo, a hora parecia nunca passar. Votei cedo e à tarde levei meus pais até o colégio. Recebemos à tarde em casa os votos que não conseguimos virar. passei a tarde meio carrancuda, sem conseguir e nem querer muito me esforçar. Um olho na conversa e outro na tela do celular, me desesperei com as notícias do transporte público e fiquei com medo da confusão que tudo aquilo poderia causar. Mais tarde, na apuração da revista piauí, o Celso Rocha de Barros falou algo sobre a nossa doce ilusão de acreditar que a preocupação maior seria só o resultado, esquecendo da possibilidade de sabotagens e golpes. Ainda com a visita em casa, enfiei um fone no ouvido e fiquei ouvindo os comentaristas que também não sabiam bem o que pensar.


Quando eles foram embora, me despedi e deitei com o meu cachorro no sofá. De tempos em tempos, ele tremia com algum rojão ou comoção que eu não sabia o que significava. A tela mostrou exatos 50 a 50 mais de uma vez, e eu via ansiosa o percentual de urnas apuradas aumentar. Minha mãe sentou comigo e ouviu atenta cada comentário, um evento também de proporções inéditas, já que política nunca tinha sido um tema que ela fazia muito questão de acompanhar. Televisão ligada e celular na mão, eu comentava com amigos e acompanhava grupos onde todo mundo trocava mensagens de apoio e apreensão.


Fotografia por José Ricardo Kishi
Fotografia por José Ricardo Kishi

Quando as urnas apuradas passavam de 55%, não consegui mais ficar parada e tive que levantar. Tinha desistido de sair de casa depois de ver imagens de alagamentos e chuvas fortes, além da concentração da polícia militar na Avenida Paulista, onde a gente ainda não sabia se ia ter festa ou confronto, mas percebi que era um evento grande demais para passar em casa, e que queria ter a lembrança de ter encontrado meus amigos para comemorar. Troquei de roupa correndo e pedi um uber até onde eles estavam. Saí de casa quando a projeção da Folha confirmava a virada e tive que acalmar meus pais umas 3x quando eles me pediram cuidado na rua, com medo de quem talvez não fosse aceitar o resultado. A apuração terminou comigo dentro do uber e, enquanto o carro subia a Abraão Ribeiro, ouvi todo mundo começar a buzinar. Tentei segurar o sorriso e compartilhei minha localização com os amigos quando o motorista resmungou e disse “De novo esse cara….”.


Desci do carro direto no fluxo de gente cantando e comemorando. Desejei ao motorista um bom trabalho e uma boa noite e fui surpreendida quando ele disse “Toma cuidado aí na multidão hein amiga, se cuida”. Fui recebida pelos amigos que me esperavam com abraços e sorrisos aliviados. Fizemos um pit stop e um último xixi antes de sairmos juntos em direção à festa.


Fotografia por Beatriz Lira
Fotografia por Beatriz Lira

A mesma altura da avenida que me causou o princípio de pânico na véspera agora me fez respirar aliviada. Parecia que alguém tinha tirado com a mão aquela nuvem de ansiedade e, agora acompanhada, eu sentia o peito inflar enquanto via os rostos de tanta gente que sabia o tamanho do significado daquilo que, coletivamente, fizeram acontecer. A imagem que eu via parecia até mais nítida e as luzes brancas da avenida viraram iluminação cênica que acompanhava a festa que se desenrolava. Fomos juntos até o ponto onde a aglomeração se adensava e ficamos juntos por lá. Gritamos, cantamos e comemoramos de todas as formas e encontramos outros amigos que também estavam lá para comemorar. Vi rostos familiares passando pela multidão e muitas fotos repetidas nos stories de todos os conhecidos virtuais.


Fotografia por Arthur Oliveira
Fotografia por Arthur Oliveira

Quando me dei conta, passava de meia noite e o metrô tinha acabado de fechar. Ao contrário dos amigos que tinham deixado o carro perto da casa onde nos encontramos, eu nem sabia como ia voltar para casa. Já começava a garoar e eu também percebi que o dia seguinte era dia de trabalhar. Me despedi de quem estava por perto e prometi avisar quando chegasse em casa. Fui andando para longe da muvuca em direção à minha casa esperando que em algum momento ficasse viável pedir um uber. Desci a Augusta vendo a celebração de quem passava e conversei por um tempo com um catador que insistiu em me acompanhar. A garoa apertou e o preço da tarifa dinâmica não se mexeu. procurei um táxi comum para negociar, mas todos que passavam já estavam cheios de passageiros que enfiavam a cabeça para fora do vidro para gritar e comemorar.


Parei no toldo da portaria do prédio em frente ao Parque Augusta e percebi que não ia ter jeito, ia ter que pagar. Meu ônibus de sempre até aparecia no aplicativo, mas não sabia que desvio ele ia fazer por não conseguir cruzar a Paulista. Ele ainda estava na Faria Lima, e eu já tremia de frio e não queria mais esperar. Foram 20 minutos entre pedir o carro e finalmente conseguir embarcar. Fiquei mais tranquila quando vi o nome da motorista mulher, e mais tranquila ainda quando ela começou a buzinar em aceno aos passageiros felizes dos carros que passavam. Conversamos com leveza até ela me deixar em casa.


Confesso que deitei sem tomar banho, só tirei a calça e troquei a camiseta fumaçada pelo pijama velho que sempre gosto de usar. Lavei o rosto e escovei os dentes, e me enfiei debaixo das cobertas. Desliguei o despertador das 6h e me contentei com o das 8h, e quando abri os olhos hoje, pelo menos essa ansiedade não era mais algo a me preocupar. Não negligencio os outros resultados e sei que os próximos anos não vão ser fáceis. O cenário continua tenebroso e sei que o fôlego coletivo tende a baixar. Mas acho que, no dia depois da vitória, a gente ainda pode comemorar.


Fotografia por Beatriz Lira
Fotografia por Beatriz Lira

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