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O Fantasma da Ópera de Gaston Leroux: uma obra muito adaptada e pouco conhecida

Anna Thereza Haddad Cury Toscano
há 11 minutos
8 min de leitura

Quando vem à mente o nome da obra, muito provavelmente, a reminescência é o musical  de mesmo título produzido por Andrew Lloyd Webber que transformou a história em um  dos maiores fenômenos do entretenimento das últimas décadas. Todavia, pergunta-se:  será que o enredo da peça que cativou a tantos é o mesmo da sua fonte de inspiração?  Tal origem é tão interessante quanto o musical ou consegue se manter superior aos seus  derivados?  


Ilustração por Maria Luisa Rocha
Ilustração por Maria Luisa Rocha

Quando já se conhece alguma das versões de uma história, principalmente, no  caso de ser a mais famosa, como é o caso do musical originalmente apresentado no West  End nos anos 801, há o receio, até mesmo uma preguiça, de se conhecer a fonte de  inspiração daquilo que já é sabido e seguro para as pequenas emoções de uma vida  tediosa. Esse é o modo de vida que muitas vezes adotamos no decorrer de uma rotina  constante em sua reprodução, amortecedora de qualquer sentimento elevado que  possamos ter. Porém, como bons leitores, apresentamo-nos como curiosos e levamos ao  fim todos os desafios que nos propomos a enfrentar!  


Ao introduzi-lo dessa maneira, pode-se dar a falsa impressão de que o livro  “Fantasma da Ópera” é chato e que não possui nada a agregar além do que já fora  brilhantemente exposto pelo musical que, aliás, possui ótimas músicas e um enredo intrigante, mais romântico do que assustador. É, em poucas palavras, interessante enquanto o telespectador continua alheio ao enredo original da história cujo impacto, já  adianto, é gigantesco! Publicado em 1910, pelo jornalista e autor Gaston Leroux que se  formou em direito e tornou-se advogado, mas que acabou por exercer as suas capacidades  jurídicas na cobertura de grandes casos criminais da França. A obra se constrói a partir da  história de uma edificação específica de Paris, cujas origens remetem ao que há de oculto,  literalmente, da grandiosa e polida superfície da cidade parisiense: o Palácio Garnier  (construído entre 1861 e 1875). 


A 13a residência da Ópera de Paris foi construída a partir de um pedido de  Napoleão III que, após quase sofrer um atentado a bombas no Teatro Le Peletier, ordenou  que se construísse um lugar mais seguro para as prestigiosas apresentações da mais antiga companhia de ópera do país. A construção, no entanto, passou pelos momentos mais  conturbados da história da França no século XIX, o que fez a construção durar quase 15  anos: a Guerra Franco Prussiana (1870 – 1871) e a Comuna de Paris (1871). O último  acontecimento foi o que mais influenciou para os termos da obra analisada, pois a sua  localização e perturbação da ordem social foram exclusivamente percebidas em Paris e,  mais especificamente, nos túneis subterrâneos da cidade cujas passagens se encontravam, 

em boa medida, no subsolo da estrutura do Palácio Garnier.  


Nos dois meses em que a obra foi totalmente paralisada, porém, um único homem  ainda estava presente nos campos de obra, continuando sozinho a construção das bases  do teatro que, por se localizar em uma área pantanosa, era de difícil assentamento. Sendo  uma fonte contínua de água, a solução encontrada foi a formação de um lago subterrâneo  que poucos alegam ter visto com os seus próprios olhos... e, assim, surge a enigmática  figura do Fantasma da Ópera cuja natureza humana ou espectral é o primeiro mistério a  ser desvendado nessa grandiosíssima obra gótica que vai, ao mesmo tempo, gerar  incômodo e fascínio no leitor.  


O grande enigma de quem é o fantasma e quais são as suas motivações, a sua  personalidade, as razões de estar naquele momento em uma casa de ópera, ou seja, tudo  a respeito do seu personagem é o ponto de inflexão que mais vai despertar o interesse do  leitor. As personagens já conhecidas, como Christine e Raoul, embora importantes, pois  são elas as forças motrizes de movimento do enredo, parecem sombras se comparadas à  atmosfera de mistério e horror que rondam o Fantasma. Pode até parecer uma constatação  um pouco exagerada, mas o modo como o personagem pessoalmente atraiu a minha  atenção para continuar a história é um dos fatores que mais marcaram a minha memória  de leitura do livro (li entre os meses de abril e maio deste ano).  


É neste ponto que paradoxalmente o livro e o musical parecem, em mútuo  entendimento, estar em acordo. Em acordo, porque se compreende que as outras  personagens do triângulo amoroso não são tão legais (sim, essa palavra mesmo) quanto a  personagem título da história, conquanto, na versão teatral, sinta-se falta da sensação da  atmosfera de temor que a sua presença implícita imprime no conjunto da trama enquanto  há o desenrolar das subtramas. Já em contradição, porque as suas versões do Fantasma  são bem distintas, pois no musical ele é bem mais “humano”, o que gera lacunas lógicas pelo reducionismo de certas etapas importantes da história original e pelas mudanças na sua personalidade e aparência. Dessa maneira, em certos momentos as suas ações parecem despropositadas e sem nexo com qualquer razão minimamente condizente com  o que ele demonstra ser o seu padrão de comportamento, uma vez que Andrew Lloyd Weber quis transformá-lo em um sedutor nato que, na maioria das vezes, age como  qualquer ser humano médio, quando no livro o Fantasma é um maluco na maior parte do  enredo.  


Já Christine Daaé, o foco amoroso, materializa o impacto da música e o seu caráter  transcendental quando está em cena com o Fantasma. Esses momentos são muito bons e,  honestamente, como uma leitora que gosta de “romances de amor”, eles tornam a leitura  mais envolvente ao perfazer a sensação de atração “de alma” que, de certa maneira, se  desenvolve entre ela e o Fantasma. É a música, manifestada nos duetos e nos solos de  Christine, que inspira os sentimentos exaltados e as experiências arrebatadoras de êxtase  espiritual que caracterizam a ligação entre ela e o Fantasma, diferentemente do musical  que, utilizando-se de um eufemismo, se apoia majoritariamente na atração física para  construir o magnetismo entre os protagonistas.  


Tais passagens, melhor trabalhadas na abordagem adotada na obra original, contribuem para a aura de atração ao desconhecido que o leitor sente de forma  contundente e que, portanto, contribui para a vontade de continuar a descobrir mais sobre  o enredo. Consequentemente, para além de algo vulgar, o livro trabalha com a apreciação  do que poderíamos chamar de “formas ideais” ou de prazer na contemplação do “eterno”  que as rebuscadas peças de ópera conseguem alcançar, e o autor as exprime vivamente.  Aliás, um ponto muito positivo do livro é o fato de haver muitas notas de rodapé escritas  pelo próprio autor sobre diversos compositores famosos de ópera, destrinchando  minuciosamente as suas obras escritas, o que torna o livro não só um romance  empolgante, mas também uma fonte profunda de conhecimento da cultura clássica.  


Só para não deixar de lado, vale mencionar umas breves palavras sobre Raoul, o  visconde de Chagny que, longe de ser o grande herói do musical, é uma personagem, na  minha visão, irritante e objetivamente covarde diante dos desafios impostos pelo  Fantasma. Apesar de tudo isso, ele cumpre seu propósito na história. A falta de  profundidade do seu caráter nada atrapalha a qualidade do livro, e acredito que a sua  configuração foi propositalmente trabalhada desta maneira, já que ele é meramente o rival amoroso. Pode parecer estranho afirmar isso, mas, muito embora a obra decorra do evento  derradeiro do embate entre ambos, a finalidade principal da obra é demonstrar a existência  fática do intrigante Fantasma da Ópera e, coincidentemente, a aparição mais concreta dele  no solo deste mundo foi por meio do envolvimento direto deste com Christine e Raoul. 


Todavia, como envolve uma história de amor e as facetas do Fantasma são  descobertas por meio da sua interação com Christine, a sua personalidade é devidamente  desenvolvida: ela quer construir a sua carreira como cantora de ópera, acredita  ingenuamente que o Anjo da Música seja realmente uma entidade enviada pelo seu pai  para ajudá-la a reconquistar o seu talento perdido após o seu falecimento. Ela demonstra  sentimentos mistos sobre o seu misterioso tutor, ora extremo horror (porque ele inspira  medo com as suas aparições perturbadoras) ora extrema veneração às suas habilidades  musicais cuja intensidade, quando há a troca de sinais, contribui ainda mais para a aversão  ao Fantasma.  


Mesmo nessas circunstâncias góticas e de terror, o livro mostra o seu lado cômico  que também chama muito a atenção do leitor e o prende ainda mais na narrativa. Não é  aquele tipo de comédia que a crítica alega que há passagens engraçadas e, quando há a  experiência real de leitura, não há absolutamente nada que inspire sequer um riso: são  passagens verdadeiramente engraçadas, aquelas que fazem o leitor ficar sem ar. A  combinação entre os momentos de tensão nos quais há interações com Fantasma e as  situações absurdas que ele inspira nas circunstâncias do teatro é extremamente natural,  fazendo com que ambos os gêneros literários convivam harmonicamente dentro do  mesmo livro. As personagens da direção do teatro ganham grande destaque nesse sentido,  pois elas personificam as únicas “pessoas normais” e alheias à história do Fantasma, mas  que são constantemente desnorteadas pela intromissão dele na administração e,  principalmente, no dinheiro da casa de ópera.  


Particularmente, gostei muito dessas passagens e considero que, depois de meses  de distância da leitura, são elas que perduram na memória juntamente com a enigmática e aflitiva figura do Fantasma da Ópera que, aliás, tem um nome autodenominado  diferentemente da versão do musical que fica sem nome mesmo. Além disso, a comédia  foi totalmente retirada do musical, o que não faz falta para aqueles que apenas  experienciaram essa versão, já que o destaque à estética gótico do enredo lhe caiu bem  sobretudo na trilha sonora propriamente dita. 


Por fim, é importante destacar que há vários incrementos narrativos que o meio  literário consegue dispor mais facilmente. Consegue-se observar, por exemplo, a  magnitude da construção do Palácio Garnier, as suas diversas camadas de profundidade dentro do foyer do teatro e em direção ao subsolo. Com tamanha estrutura, ademais, há  várias personagens que foram retiradas da versão do musical ou ainda personagens que  foram modificadas para abarcar a ação que mais de um agente pratica dentro da narrativa:  é o caso do Persa, uma das únicas pessoas no mundo que conhecem algum elemento do  passado do Fantasma e que surgem como um guia na jornada de outros personagens, e da  Mame Giry (em outras versões, Madame Giry) cujas atribuições do musical derivam  justamente do Persa e que, portanto, sem a sua presença, destina-a uma participação bem  menor no livro.  


De qualquer modo, é um livro muito bom e não há palavras suficientes para  descrever a experiência do que é ler uma obra que traz ao leitor um turbilhão de emoções!  É possível que haja perturbações com certas passagens, risadas em algumas, até choro em  outras, porque o final, em especial, é muito emocionante e, na minha experiência, tal desfecho foi muito intenso e provocou muitas saudades no período pós-leitura que foi  remediado apenas devido ao prosseguimento quase que imediato para a leitura do  extraordinário livro da resenha anterior “Os Irmãos Karamázov”, caso o presente leitor  não tenha conferido.  


Finalizo, desse modo, a resenha recomendando a leitura de “O Fantasma da  Ópera” de Gaston Leroux que não é um livro muito grande, com 320 páginas na edição  da Zahar, que é a melhor versão no mercado tanto pelo acabamento físico do livro (que,  mesmo levando para todos os lugares possíveis na bolsa, vai durar séculos, pois é de capa  dura), quanto pelo esmero da tradução e revisão muito bem-feitas. Além disso, como se  constatou diversas vezes durante o texto, conhecer o enredo do musical não significa  conhecer plenamente o enredo que deu origem a sua existência: o livro, como um meio  de comunicação de expansão ilimitada, traz diversos aspectos que são inimagináveis na  ambientação do enredo do musical. As personagens do musical possuem certas  expectativas de ação que, por vezes, são totalmente contrárias à dinâmica das personagens do livro, sobretudo, nos atos finais que condensam e concluem de forma satisfatória todos  os elementos semeados no desenrolar da narrativa.  


Obs: Caso você queira ter uma experiência mais emocionante ao ler este livro, recomendo  ouvir a música “Silhouete” da artista Pastel Ghost, não durante a leitura em si, mas enquanto estiver no processo de andamento da obra como um todo. Isso me ocorreu  durante a minha experiência de leitura e achei que combinava perfeitamente com a  energia que o Fantasma emana durante a sua jornada de assombração com Christine.  


1 Continua até hoje em cartaz quase permanentemente no London Theather para se ter uma ideia da  magnitude do sucesso da peça cuja estimativa de arrecadação global em entorno de 6 bilhões de dólares  (CASARIN, 2018). 


Referências Bibliográficas  

CASARIN, Rodrigo. Registros do Subterrâneo. In: LEROUX, Gaston. O Fantasma da  Ópera. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2019.

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