Somos monstros ou isso é ser um ser humano?*

Toda essa perplexidade que milhões de brasileiros estavam vivenciando após o resultado das eleições gerais do 04 de outubro, - perplexidade para com os seres humanos que apareceram naquelas urnas, para ser mais exata, - culminou em uma miríade de interpretações acerca do porquê de tudo isso, que vão desde a conclusão por um grave estado de alienação das pessoas até o seu mais completo e consciente sadismo genocida. Para muitos, no entanto, algumas coisas ficaram sem explicação, ou melhor, sem a devida explicação.
A primeira delas se refere ao motivo da escolha da bandeira homofóbica, e principalmente transfóbica, pelos apoiadores da Família Bolsonaro como foco de direcionamento de todo esse ódio reprimido que transborda pelos poros de um grupo enorme de brasileiros. A segunda, por sua vez, foi a aparente contradição entre essas pessoas serem os “Reis da Misoginia" na política e terem apoiado a eleição de tantas mulheres.
No primeiro caso, diferentemente do que muitos acreditam, não se trata de uma escolha ao acaso, imotivada ou sem sentido. Pelo contrário, faz todo o sentido. Isso porque, a pauta das pessoas LGBTQIAPN +, de maneira geral, carrega em si um desafio às estruturas mais arraigadas de opressão que permeiam a nossa sociedade. Essas pessoas que estão sendo o foco de todo esse ódio foram escolhidas, para além da sua vulnerabilidade social, porque desafiam uma regra fundamental de todo o sistema social, que é a regra do “cada um no seu lugar”. Isso quer dizer que ao ultrapassarem as figuras, tidas como fatos irredutíveis, da mulher e do homem, essas pessoas colocaram em xeque toda a estrutura que jaz sobre elas. Toda essa hostilidade resulta da clara compreensão do papel essencialmente disruptivo da negação de todos esses essencialismos estabelecidos a partir de uma seleção enviesada de postulados da Biologia.
Como se sabe, ao fim e ao cabo, a Biologia foi o que sustentou por muito tempo, e de certa maneira ainda sustenta, as hierarquias sociais, o Racismo, a Misoginia e mesmo a expropriação imperialista, ao ser arrancada de seu contexto ontológico, econômico e social, ocultando que a Natureza sempre foi vista e revista por esses fatores através da História. Ao questionar essas figuras, essas pessoas transgridem o sistema, chegando até a trincheira determinista da Fisiologia, estabelecendo que ela pode ser revista e assim transposta e que, portanto, qualquer outra também pode. Então não é ao acaso. Por isso mesmo, em muitos momentos históricos e ainda hoje, os primeiros a serem atingidos são os direitos das pessoas LGBTQIAPN+, inclusive em países que, diga-se de passagem, se autonomeiam anti-imperialistas na luta pela expulsão dos colonizadores que continuam a saquear, ao desvincularem lutas que são inseparáveis. Assim, é importante esclarecer que todos esses retrocessos que estamos testemunhando mundo afora fazem parte de um fenômeno que está inserido em um projeto muito maior que a família Bolsonaro e que se dá em todas as partes.
Ainda, é importante lembrar, se alguém não tiver percebido, que da maneira como são tratadas as pessoas LGBTQIAPN+ em uma sociedade pode-se extrair muitas informações acerca do quanto de poder de autodeterminação a mulher cis e heterossexual tem nessa mesma sociedade, muito mais acuradas que da simples análise de discursos vazios e leis propositalmente inócuas, já que a transfobia que elege esses indivíduos sintetiza em si muitas outras opressões. Logo, há nesse projeto de extermínio veiculado um projeto para todos nós negros, mulheres, indígenas, trabalhadores, que é o projeto da manutenção do “status quo” em todas as arenas da vida. É por isso que sim, Erika Hilton e tantas outras representam a todas nós e merecem todo nosso apoio. A luta delas é a nossa luta.
Quanto às mulheres que foram eleitas com esse discurso repugnante do “dever de submissão” das mulheres, não se enganem. Há uma diferença muito grande entre entender que essas mulheres foram eleitas por concessão dos homens, que aceitam que mulheres falem desde que seja o que eles querem ouvir, e negar que essas mulheres têm projetos e anseios próprios de Poder, dominação e status. A recém-eleita Senadora Michelle Bolsonaro é um claro exemplo disso. Um claro exemplo de mulher que percebeu que só ser a esposa de alguém não lhe bastava, por mais que suas camaradas gostem de gritar aos quatro ventos que “o homem é o cabeça delas e da família”. Portanto, elas não são fantoches, elas fizeram uma escolha consciente e deliberada por defender essas pautas e apenas sintetizam em suas figuras um adágio muito simples dos opressores: para a gente, tudo; para eles, nada.
Ou seja, para elas Poder, mas para nós submissão. Para eles toda a conta bancária do Estado, para nós trabalhar todos os dias incansavelmente até morrer e uma educação sucateada. Para eles, foro por prerrogativa de função, inviolabilidade por quaisquer de suas opiniões e palavras (art. 53, CRFB/88), proteção constitucional, para nós disparos de fuzil em uma criança de 5 anos e 80 tiros por engano e nem mesmo as frágeis garantias da CLT. Para eles, “Madame Satã”, para nós castidade e decência.
Por fim, apenas gostaria de lembrar a todos que o voto direto, secreto, universal e periódico é considerado cláusula pétrea nos termos do artigo 60, § 4º, inciso II, da Constituição Federal e que isso inclui, para o desgosto de muitos, o voto da mulher. Dessa forma, o que precisa ficar muito claro, é que fazer campanha com base em promessas de ataques ao direito de voto das mulheres é ou claramente mentir para os seus eleitores ou, o que é pior, tentar se eleger prometendo um golpe de Estado.
É por tudo isso que eu afirmo e reafirmo que ou serão todas, ou não será nenhuma.
*LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Sociedade Literária, 2021.




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